Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira : No ato do desespero

Sou apenas sua esposa, mas se pudesse, naquele momento, o colaria em meu ventre e o geraria de novo para acabar com sua dor. Eu o amo de uma forma tão intensa que não tem como alguém amar mais a uma pessoa. Vê-lo sentado, ali, no escuro, chorando como uma criança me fez sentir a maior dor que uma pessoa poderia sentir. Meu coração doía e se encolhia a cada soluço desesperado que ele soltava do fundo da alma.

Era um homem de pouco mais de 40 anos. Eu o conheço desde os 12. Nunca o vi tão frágil. Nunca fora violento, apesar de gostar de discussões acaloradas no bar, com os amigos. Mas neste sábado triste, as coisas perderam o controle. Enquanto arrumava, apressadamente, suas roupas, jogando-as em uma sacola, Jorge me contou que perdera a cabeça. Estava confuso. Nem mesmo tinha certeza de que havia feito o que sua cabeça repetia como um filme de terror.

Na verdade, Jorge matou mesmo aquele homem. Começaram discutindo política, depois futebol. Entre cervejas e ofensas, perderam a cabeça. Foi com a faca de cortar limão para caipirinhas, que estava sobre o balcão. Jorge nunca, mas nunca mesmo, fora violento. Foi um ato impensado. E também sem refletir, fugimos pelas vielas sujas de esgoto e desesperança, até nos escondermos em uma casa abandonada. Cada soluço dele aumentava a minha dor. Como eu gostaria de arrancar o desespero dele com minhas mãos. Tirar esta aflição como se saca um casaco, uma meia.

Ficamos em silêncio absoluto na casa empoeirada e repleta de segredos do passado. E à medida que a dor dele aumentava, meu amor se multiplicava. Nosso casamento já estava na fase do cansaço, vivendo no piloto automático. Perdidos num cotidiano de privações e poucas esperanças, eu já nem sabia mais se o desejava. Mas agora, neste extremo da existência, confesso que o amo, e ainda mais do que eu pensava.

Sentados no chão da casa abandonada, em um sítio na periferia da cidade em que moramos, estávamos perdidos entre delírios. Chegamos aqui a passos largos e desesperados. Fugimos como deu, com a roupa do corpo, um saco cheio de trapos e uma pequena pistola que ele herdara do pai. Nunca atirou em alguém. Eu e ele apenas brincamos com a arma, uma vez, na fazenda do meu padrinho. Mas, agora, este pequeno revólver é tudo o que meu amado tem para se proteger.

Seu choro aumentava com o chegar da madrugada, multiplicando minha angústia. Eu, em silêncio, vendo suas lágrimas brilharem com o luar que entra pela janela de vidros quebrados. Sentia meu coração doer. Eu queria dizer algo que o consolasse. Mas o silêncio prevalece nestas horas de angústia. Me doía cada veia no corpo. A adrenalina não baixava. O medo do que será do futuro atormenta a alma como se fosse o fantasma do homem do bar que rodeasse nossas mentes, virando os pensamentos do avesso ao prazer da culpa.

Pelos meus cálculos, já passava das três da manhã, quando os soluços cessaram. Jorge adormecera em posição fetal, abandonado no chão frio. Eu, em alerta. Cada som lá fora me fazia imaginar a chegada da polícia, a prisão, as dores no cárcere e a minha vida em frangalhos sem meu homem.

Eu queria tirar a angústia dele. E fiz. Foi seco, um tiro em sua nuca. A dor dele passou.

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