Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Não acreditarás nas bobagens da internet

Bom, já sobrevivemos ao Natal e agora chegou o Ano-Novo. E deverá ser o ano das notícias falsas. Explico: esta será nossa primeira eleição depois dos nocivos efeitos do chamado “fake news” nas eleições americanas e francesas. Trata-se de um dos maiores movimentos de manipulação da opinião pública já registrado na história da humanidade.

Como já foi amplamente divulgado, perfis falsos foram usados para tentar influenciar as eleições americanas no ano passado, e representam uma crescente preocupação no mundo ao lado das notícias falsas, facilmente compartilhadas nas redes, e também do papel da propaganda direcionada nas redes sociais, mecanismo que teria sido usado por russos nas eleições dos EUA. O Facebook declarou ter desativado 470 contas e páginas “provavelmente operadas da Rússia”, que publicavam conteúdo que visava causar maior divisão nacional em tópicos como direitos LGBT e questões raciais e de imigração.

E nosso país está na mira destas organizações internacionais especializadas em criar perfis falsos. No início deste mês, a britânica BBC publicou reportagem especial que revela exército de perfis falsos usados para influenciar eleições no Brasil deste ano que se avizinha. De acordo com o material, as evidências reunidas por uma investigação ao longo de três meses sugerem que uma espécie de exército virtual de fakes, usado por uma empresa com base no Rio de Janeiro para manipular a opinião pública, já estava presente no Brasil desde 2012 e já teria agido no pleito de 2014, porém, de uma forma tímida perto do que hoje está sendo articulado para 2018.

A reportagem entrevistou quatro pessoas que dizem ser ex-funcionários da empresa, reuniu vasto material com o histórico da atividade on-line de mais de 100 supostos fakes e identificou 13 políticos que teriam se beneficiado da atividade. 

A sofisticação é tão grande, que estas empresas vendem os serviços a grupos ideológicos, partidos políticos e até a candidatos, individualmente. Os funcionários destas corporações especializadas em manipulação por meio das redes sociais são treinados para cuidar de até 20 perfis falsos por vez. Eles pegam fotos reais, mas montam páginas virtuais de mentira, que até simulam uma vida cotidiana normal, com mensagens de “bom dia”, fotos de viagens e postagens sobre fatos pseudoaleatórios.

Perfis falsos criam “reputação” e parecem ser legítimos adicionando pessoas aleatórias com o objetivo de colecionar amigos reais. Segundo a reportagem, pessoas reais chegam a dar parabéns a fakes em aniversários mesmo sem conhecê-los e fazem comentários elogiosos a fotos de perfil, ajudando a criar a sensação de que são verdadeiros. É desta forma que, inadvertidamente, usuários reais contribuem para a criação de “reputação”. A reportagem detectou que os perfis identificados como fakes também interagem entre si — encontrou até um “casal” de perfis falsos.

Só que todos estes falsos internautas são usados para reproduzir, comentar e compartilhar notícias falsas sobre ou contra políticos. Desta forma, o internauta mais distraído passa a acreditar que o que está sendo tão difundido e comentado é verdade. “Se tanta gente está compartilhando e comentando, deve ser verdade”, pensa a maioria dos usuários das redes socais e aplicativos de troca de mensagem por telefone. E e aí que os golpistas se aproveitam.

O leitor poderá dar mais exemplos do que eu, pois com certeza já se deparou em seu telefone e em redes sociais com notícias que pareciam verdadeiras, pois estavam postadas em um site com nome parecidos com os de grandes jornais e revistas. E como eram amplamente divulgadas, virava “verdade”.

Muitos leitores, neste final de semana, farão as promessas tradicionais para o Ano-Novo, como emagrecer, ler mais, estudar mais, ter mais tempo para relaxar... mas seria bom adicionar a promessa de que não vai acreditar em qualquer bobagem na internet. Os jornais, assim como as mídias tradicionais, ainda são a melhor fonte de informação. Ingenuidade vira cumplicidade na velocidade de um clique.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.382002