Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Mulher e feliz por ser inútil

Selena não vem de família rica, não exerce grande cargo profissional, mora em bairro de classe média baixa e não oferece atrativo para as pessoas que medem as outras pelo que elas podem lhe proporcionar. Mulher, negra e feliz, ela vai vivendo da sua profissão de digitadora em uma empresa de cobrança e se realiza nos bolos que fez nos finais de semana. Doces são as horas em que ela se dedica ao seu mundo. Ela sabe do seu valor como mãe, esposa e profissional burocrática, mas para as demais pessoas ela é inútil: por isso, ninguém lhe dedica muita atenção, não lhe oferece vantagem alguma.

Hoje cedo, ao chegar à firma, por exemplo, ela ficou sabendo de uma festa em que todos os outros funcionários participaram na noite passada. As moças de saias curtas contavam sobre os “babados” da noite, os rapazes se regozijavam pelas bebidas tomadas e pelas ‘minas que pegaram’ e o dono da festa cooptava mentes e corações por ser o rei da diversão. Selena, sentada em sua mesa, em frente ao velho computador em que digitava nomes, endereços e CPFs, até sentiu uma ponta da dor da exclusão.

Ouvia, no mais profundo silêncio, as narrativas sobre a festa na qual apenas ela não fora convidada. Uma das mais entusiasmadas era a Letícia, que havia sido contratada na mesma semana que ela e que, no início, fora sua grande amiga. Esta amizade durou uns dois meses, até que a moça já tivesse mapeado quem era quem na empresa e abandonado Selena para se aproximar de Iara e Marcelino, os gerentes da filial. Para sua amiga, a ‘negrinha da digitação’ já era inútil e, por isso, a descartou sem cerimônias.

Nas voltas da vida, a doceira de final de semana já tinha se acostumado a ser descartada. Desde a infância, por não oferecer mais do que desinteressada amizade, ela sempre fora deixada para trás. Mas isso pouco tinha a ver com sua cor de pele ou pelo fato de ser mulher. Mas era mais por ser de periferia e não ter sobrenome. Ela, observadora da vida, já tinha notado que, com os meninos do bairro, era igual. Como disse uma vez um ex-patrão, ela e eles faziam parte do “grupo dos não interessam”.

E a manhã na firma foi tomada pelos comentários sobre a festa. Mas dizem que quem desconfia fica sábio. E, ao que se dedicam a ouvir os outros, aprendem a ouvir a si mesmo. Desta forma, descobre-se que há um mundão dentro da gente.

E perdida nos caminhos deste mundo que a gente tem dentro da gente, Selena foi se achando nos pensamentos. E, enquanto mais se conhecia, mas aceitava as coisas como elas são e, melhor, foi entendendo as coisas da vida. E, enquanto mais se basta, mas ela fica feliz por ser inútil às pessoas. Sem nada para oferecer, nada explora também dos outros. As poucas amizades e os grandes amores são delas, pelo aquilo que ela é, não pelo que pode dar em troca.

A turba feliz segue em sua volta, mesmo que nos cantos um fale mal do outro. E nem as pequenas intrigas seduzem a digitadora, que bate à máquina ao som do canto doce que seu marido a acorda todos os dias. O pedreiro Antônio constrói a ela um mundo perfeito. E dela, ele nada espera em troca, pois sabe que nunca lhe faltará afeto, cafuné e bolo de chocolate aos sábados. Doces são as horas em que ela passa em seu mundo, onde não há trocas, apenas doações. Um mundo em que nada se pede e, por isso, tudo se tem. E ela sorri sendo inútil, ou melhor dizendo, não sendo objeto útil para as pessoas.

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