Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Mão estendida

O senhor Soniè suava muito quando deixou a estação do metrô Sans Souci, na cours Albert Thomas, naquela tarde de verão em Lyon, França. Do outro lado da rua, entrou em uma loja de sucos e cafés na esperança de espantar o mal-estar. Aquele junho tinha passado de todos os limites de temperatura e o velho bancário aposentado já sentia saudade dos dias de chuva que inundavam as ruas e enchiam o noticiário da noite com relatos de estragos por toda a cidade. Em pensamento, amaldiçoava o dia, o sol quente, a atendente displicente da loja e o destino. A irritação, que já era a sua marca, estava acentuada.

— Que acabe o mundo em fogo eterno, para nunca mais se cometer o erro de começar de novo. Danem-se todos. Queimem-se todos; esbravejava ele, falando sozinho, porém alto.

Quando, enfim, seu suco fora servido, já estava tão perdido em seus pensamentos de vingança contra o mundo que nem reparou nos olhos tristes de Fantine, a jovem garçonete que tentava não chorar na frente dos clientes. Ela descobrira naquela manhã que estava grávida, mas o pai da criança já não estava mais com ela. O namoro havia terminado há um mês, depois de uma briga de deixar marcas no corpo e na alma. Sozinha naquela cidade, sem dinheiro para se manter, ela não via saída para seu desespero. Estava em pé, atrás do balcão, por força da sua pobreza. Não tinha mais escolhas: restara trabalhar para tentar sobreviver a dois, agora.

Ambos eram observados por Serge, o entediado dono do estabelecimento, que estava ao caixa, do outro lado do salão. O velho bancário olhava fixo para o lado de fora e via o mundo queimar. A garçonete olhava fixo para a sua barriga e via seu mundo desabar. Eram três solidões que se faziam companhia naquela terça-feira a ser esquecida. Neste momento, a porta se abriu e um jovem estudante quebrou o silêncio daquele triste momento. Trazia com ele um sorriso que destoava de tudo e de todos. Colocou seus cadernos cuidadosamente sobre o balcão e pediu um copo de água com gás.

Quando era servido, olhou para Fantine e disse, sem pensar:

— Não desanime. Persevere. Se você lutar mais um pouco, ninguém pode prever as bênçãos que poderão ocorrer em seu caminho.

Neste momento, ela não segurou mais o choro contido. Correu para a cozinha e deixou os dois clientes sozinhos. O velho bancário, indignado com a cena, repreendeu o jovem.

— Veja o que você fez, garoto. A moça estava aí trabalhando em paz e você faz isso com ela. Vá tomar sua água lá fora, safado.

O garoto, desconsertado, estava se preparando para sair, quando foi interrompido pela moça, que pediu que ele ficasse. Ela pegou em suas mãos, pediu desculpas e agradeceu pelas palavras de incentivo. O jovem, porém, com medo, sentou-se em uma mesa perto do caixa. Tinha esperança em ser protegido. Suas pernas tremiam.

Fantine, no entanto, contra todas as previsões, aproximou-se do velho bancário e agradeceu pela pronta defesa. Ao perceber que sua atitude desarmara o espírito dele, ficou por perto conversando amenidades, até que começou a falar sobre a importância de se ter paciência com os jovens e segurar a irritação para que não apareçam problemas de saúde futuramente.

Minutos depois, o jovem pagou sua conta, ainda trêmulo, e foi embora. Não demorou e o senhor também seguiu seu caminho sob o sol. Entre incrédulo e irritado, o patrão a repreendeu por ter dado atenção ao velho grosso. Ela, calmamente, explicou:

— Quando peguei na mão do menino, entreguei a ele um bilhete narrando meu desespero por causa da minha inesperada gravidez. Disse também que as palavras dele podem ter salvo a minha vida e a do meu filho. Em relação ao senhor, ele tentou me defender do jeito dele. Tenho que ser agradecida, também. Retribui o gesto, apenas; disse ela, demonstrando felicidade pelo gesto que teve.

— Ele foi rude com quem tentou te ajudar primeiro. Ele é quem merecia ser expulso — esbravejou Serge.

— Todos sofremos neste mundo, senhor. Somos doentes e o remédio está no bem que cultivamos, principalmente àqueles que mais precisam de uma mão estendida.

Ela, então, abraçou o patrão e agradeceu a ele também por tentar protegê-la.

— Vou fazer seu café, para o senhor se acalmar.

E o dia terminou com um pouco mais de paz.

Há quem, apesar do sofrimento, consegue olhar para os outros como irmãos que também precisam de apoio. Fantine tinha razões para estar triste a agoniada, mas foi quem teve mais sobriedade para estender a mão a todos. Ela, mesmo doente sentimentalmente, foi a médica para aquelas almas. Ao contrário do que esperava seu patrão, ela não se fez de vítima. Foi mais forte. Em prece constante e reflexão, poderemos vencer nossa pequena visão de nós mesmos e começar a ver e a estar com quem está precisando. Estando ao lado de quem precisa, podemos entender e dimensionar melhor o que estamos vivendo.

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