Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Jorge 'sorriso' Napoleão Xavier

A leitura da biografia sobre o doutor Jorge Napoleão Xavier, brilhantemente escrita pelo jornalista Arnon Gomes, me remeteu a doces lembranças. Duas das características mais marcantes do doutor Jorge, para mim, são a generosidade e a humildade. Predicados que se reforçam em sua biografia — que recomendo a todos, araçatubenses ou não.

Primas-irmãs, estas qualidades andam tão próximas que é difícil destacar quando um se sobrepôs ao outro nas ocasiões em que tive o prazer em ter dedos de prosa com ele. Meu primeiro contato com o doutor Jorge foi na cantina do Centro Universitário Toledo. Eu já trabalhava na Folha da Região e fazia o curso de jornalismo, no período da manhã. Ficava até o fechamento da edição, saindo sempre por volta da meia-noite. Dormia um pouco em casa e, às 7h, já estava na faculdade. Por isso, era imprescindível que eu tomasse um café forte na área de alimentação da faculdade. 

E foi justamente em um café destes que me deparei com a figura do doutor Jorge. Ele, debruçado no balcão da cantina. Eu, à meia distância, olhava-o com admiração. Eu era um leitor assíduo de sua coluna na própria Folha e nutria por ele um sentimento de fã. Talvez eu não tenha disfarçado bem minha alegria, pois ele olhou para mim, sorriu e puxou conversa. Sinceramente, fiquei tão tímido e atônito que não sou capaz de descrever o que foi dito — se é que eu tenha conseguido falar alguma coisa.

Passado este primeiro momento, eu ousava cumprimentá-lo sempre nos corredores da faculdade. Até que por decisão do jornal, deixei a editoria de Política e fui trabalhar no caderno Vida como repórter e ajudante do editor. E foi nesta época que tive novos testemunhos da grandeza deste homem.

Primeiro, eu era responsável por receber os artigos que seriam publicados às sextas-feiras neste espaço que, hoje, ouso também escrever. E, invariavelmente, todas as vezes que remetia um escrito, o doutor Jorge ligava na redação e falava comigo para perguntar se o texto havia chegado e se estava tudo bem. Eu me sentia um privilegiado em ler o artigo antes dos demais mortais. 

Nunca foi necessário mudar um ‘esse’ sequer no texto, mas se um dia eu tivesse achado qualquer incorreção, mesmo um simples cochilo de digitação, eu nunca teria a ousadia de corrigir. Em escritos de Jorge Napoleão Xavier e de Tito Damazo, se houver erro, muda-se a gramática, pois com certeza eles estão corretos.

E por esta humildade, minha admiração pelo doutor Jorge foi aumentando exponencialmente. E foi pela própria Folha, por circunstâncias de uma reportagem que tive o prazer de entrevistá-lo em seu escritório. A generosidade com que ele me recebeu e respondeu às perguntas foi marcante. Lembro-me do olhar atento dele quando eu o questionava. 

Passaram-se os anos e deixei a redação do jornal. Por incentivo de amigos, comecei a escrever crônicas e poemas, que me renderam a participação em algumas cerimônias de premiação em concursos regionais. E foi em uma destas ocasiões que tive meu penúltimo encontro com o doutor Jorge. Na saída do teatro Paulo Alcides Jorge, nossos passos se encontraram. Trocamos rápidas palavras até que ele me cobrou a publicação de um livro. Dei a mesma resposta que ainda hoje é real:

— Doutor, me falta dinheiro. 

Ele me olhou com aquele olhar generoso de sempre e me consolou dizendo que tudo tinha sua hora. Despediu-se com seu sorriso peculiar e voltamos às nossas vidas. A amizade, mesmo que acidental, do doutor Jorge sempre foi para mim muito importante. Por isso, lhe dei um grande abraço em nosso último encontro. Foi no lançamento do livro do doutor Geraldo da Costa e Silva, o Pratinha, no Mariá Hotel. Mesmo bem debilitado, doutor Jorge se colocou de pé para cumprimentar algumas pessoas, entre elas, eu.
 
Fui embora feliz em tê-lo visto. Seu sorriso acolhedor me marcou para sempre. Agora, aprendendo mais sobre a história do doutor Jorge, por meio de sua biografia, a admiração ainda é maior. Sua trajetória no jornalismo e no direito servem de inspiração para os moradores da velha senhora. A mim, o livro tem tido um impacto enorme, pois estou descobrindo mais sobre a cidade que me acolheu e sobre este tão importante personagem, que tive a honra de conhecer. 

Parabéns, Arnon, pelo lindo livro; obrigado, doutor Jorge “sorriso” Napoleão Xavier, pelos ensinamentos de humildade que nos legou. 

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