Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Irene, a moça do outono

As ruas estavam vestidas para o outono. Flores multicoloridas cobriam as calçadas. As poucas que se aventuravam a cair no asfalto, dançavam no ar com o passar os carros. Eram rodopios que enfeitavam ainda mais o estado de espírito de Irene. Ao completar 40 anos, ela se sentia como se ainda debutasse na vida.

Finalmente se sentia livre da adolescência social, portanto, mais segura. Pensou no companheiro de tantos anos. Ela já não brincava mais com a realidade e aceitava a vida como ela era. Enfim, finalmente adulta emocionalmente. Ela caminhava e a imagem do marido não lhe saia da cabeça. Redesenhava seus olhos, seus gestos, suas manias...

Caminhava pelo tapete de flores com uma leveza que nunca experimentara. Seus pés, calçados em uma sandália de tiras douradas, eram como de uma deusa do Olimpo. O sol, as árvores, o sorriso dela; tudo formava uma paisagem digna de ser perpetuada por um hábil pintor impressionista.

E ela assim desfilou por três ou quatro quarteirões. Seus pés, no entanto, perderam a companhia das pétalas. Chegaram à calçada suja de uma avenida barulhenta e estéril. Carros desfilavam indiferentes pelo asfalto, fazendo agora rodopios de sons cortantes. O sol escondera-se atrás dos prédios com suas janelas sujas e fechadas. Suas sandálias douradas desviavam de latas, folhas de jornais e seres humanos descartados nas vias.

Ela até tentou ficar indiferente a tudo aquilo. Tentou guardar na retina ainda o brilho das ruas anteriores. Buscava o cheiro das flores. E a imagem do marido, o cheiro dele, o olhar dele, a acompanhava o tempo todo. Ela estava ansiosa para vê-lo.

Caminhou com mais dificuldades, sentindo o cheiro ácido da fumaça dos ônibus. Sentou-se junto a um balcão de um bar sujo e tomou um refrigerante em um copo seboso, que escorregava entre os dedos. Ela olhava para toda aquela gente sem entender o motivo de tanta correria. No rádio, tocava uma seleção de Chorinhos, com os estridentes e consoladores acordes do bandolim e o abraço do pandeiro.

Embalada pelo som, ela revisitou, em pensamento, o dia do seu casamento. A valsa, a expectativa, o sorrido do marido, ainda bem moço. Lembrou-se de quando se conheceram, do cheiro doce do perfume, do primeiro beijo na porta do clube. Olhou no relógio e percebeu eufórica que estava na hora de encontrá-lo na porta do restaurante de sempre para almoçarem juntos.

Pagou a conta com uma nota de R$ 10 e nem esperou o troco. Apressou-se pelas calçadas, saltando buracos e pernas de andarilhos. Estava disposta a fugir de tudo e dela mesma. A caminhada acelerada só era mais lenta que seu coração, que ela sentia bater cada vez mais rápido, a ponto de fazer saltar o pescoço.

Quando chegou ao restaurante, Mauro estava lá. Entraram, sentaram-se um de frente para o outro. Finalmente, ela novamente sentiu a alegria e a leveza da rua florida. O cinza da avenida perdera espaço para o outono. Ela olhou bem nos olhos dele, e docemente fez a pergunta que lhe atormentava a manhã toda:

- E aí, assinou o divórcio?

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