Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: Deus me proteja de mim

“Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim”. Estes são os versos de uma canção do compositor e cantor paraibano Chico Cesar. A obra - da qual esta crônica pegou emprestado também o título – é um primor. Ela nos leva à uma série de reflexões importantes sobre o autoconhecimento.

Parte significativa de nossa vida, por instinto e aculturação, a gente passa com medo dos perigos externos e óbvios. Medo da morte, da solidão, da doença que nos coloque em uma cama. Medo da traição, de ser feito de bobo. Medo do que o outro pensa da gente. Medo, medo.

De tanto procurar o inimigo fora, não nos damos conta de que parte dores que nos acometem na vida é causada por nós mesmos. Sofremos por um amor que a gente regou como uma planta, no pensamento, a ponto de chegar acreditar que era recíproco. Choramos por brigas que a gente poderia ter evitado se não tivesse tanto medo de se sentir diminuído pelo outro. Somos acometidos por ansiedades porque queremos atingir metas ou padrões de vida que nós mesmos estipulamos como ideais.

Tudo isso é invenção de nossa própria cabeça. Por isso, a frase da canção de Chico César é tão significativa. Pedimos sempre para que Deus nos proteja de nossos inimigos, dos perigos internos, sem nos dar conta que na maioria das vezes somos nós os nossos maiores inimigos. Que Deus “me proteja de mim”, primeiro. Para que eu não coloque pesos demais sobre meus ombros, não deixe minhas carências me levarem a me submeter a maus amores e a más amizades. Que o Criador não permita que a gente crie situações de sofrimento.

Esta reflexão nos leva à percepção de que devemos parar de culpar o mundo pelas nossas mazelas. Abandonar aquilo que o filósofo e escritor francês, Jean-Paul Sartre, sintetizou muito bem na frase “o inferno são os outros”. 

É preciso, diz o autor, que a gente tenha consciência profunda de que somos responsáveis pelas consequências de nossas ações; de não podermos falar que “Deus quis assim”, mas saber que a culpa foi nossa; de não podermos acreditar que “a vida está nos testando”, mas saber que estamos sofrendo as consequências de nossas ações; saber que aquele sofrimento não foi culpa dos outros, mas fruto de nossas atitudes e tão somente nossa culpa. Sartre avisa que o existencialismo é para poucos, pois exige uma honestidade que poucos possuem.

Depois de a gente estar devidamente protegidos de nossa incapacidade de que fazer o próprio bem, o tempo todo, é que devemos olhar para fora. O desenvolvimento do amor próprio nos dará a força suficiente para pararmos de fazer o nosso próprio mal, que na maioria das vezes é um ato inconsciente.

Que Deus nos proteja “da maldade de gente boa”. É imprescindível que a gente aprenda que, nem sempre, aquele que mais nos sorri é o que nos ama de verdade. Quase sempre a gente confunde simpatia com bondade e cara feia com maldade.

E sobre a bondade da pessoa ruim? Ah, esta é perigosa, pois sempre esconde uma má intenção. Dos três males citados nesta canção, este talvez seja o mais fácil de ser identificado. Das pessoas que julgamos más, sempre esperaremos coisas ruins. Então, nosso alerta está sempre ligado. Mas, como toda a prevenção é necessária, que Deus nos proteja das pessoas ruins, também.

Mas como conseguir equilibrar tudo isso? Creio que não seja possível. Mas para continuar na canção título deste texto, “caminho se conhece andando. Então vez em quando é bom se perder. Perdido fica perguntando. Vai só procurando. E acha sem saber. Bom mesmo é ter sexto sentido, sair distraído e espalhar bem-querer.”

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