Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: A política e o bezerro de ouro

O culto ao dinheiro é o ponto central de toda a crise política, de segurança pública e moral. A busca desenfreada pela moeda tem feito o ser humano perder noções de coletividade, hombridade e da própria realidade. Por trás de nossa pedagogia de criação dos filhos, da definição das carreiras profissionais e ações cotidianas, está oculta a adoração ao pensamento competitivo, aonde ganhar mais dinheiro é o prêmio a quem mais se esforça. Mesmo que seja preciso pisar na cabeça dos seus semelhantes, o que importa é vencer.

E este espírito “você tem o direito a ter luxo para ser feliz” ficou tão forte na sociedade ocidental desde a Revolução Industrial, que, hoje, os livros mais vendidos são os que pregam o “faça você mesmo”. Pensar positivo hoje é ferramenta para a busca por riqueza e prosperidade. À parte de um sentimento de comunidade, cada ser passou a procurar em si uma forma de matar qualquer sensibilidade ao coletivo para se dar o direito de ficar rico. “Pense positivo e em você mesmo”, dizem os gurus que ganham rios de prata e ouro com a venda de suas obras.

Este sentimento ficou tão arraigado na sociedade que até mesmo as instituições como a religião aderiram. Agora, ser próspero financeiramente é termômetro de fé. Quem mais acredita e doa à igreja, mais ganha em dinheiro. Este é o novo bálsamo.

E, em um mundo assim, não é de se espantar que eleitores e políticos também vejam o serviço público como instrumento de riqueza. Vota-se a troco de favores e governa-se com a certeza de que não se pode perder esta oportunidade de ganhar mais metais para si e para os seus amigos. Este pensamento egocêntrico também patrocina de pequenos delitos no cotidiano à busca pela riqueza por meio do narcotráfico. Ninguém quer ficar de fora da roda da fortuna.

O geógrafo e intelectual Milton Santos (1926-2001) defendia a tese de que se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, ou seja, líder absoluto, isso também se deve ao fato de que tudo se torna valor de troca. A monetarização da vida cotidiana ganhou, segundo ele, no mundo inteiro. Essa presença do dinheiro em toda parte acaba, ainda de acordo com Santos, “por constituir um dado ameaçador da nossa existência cotidiana.”

O dinheiro é o novo bezerro de ouro, que além dos afastar da fé, destrói os valores essenciais. O resto — o noticiário político cheio de corruptos e violência nas ruas — é apenas a liturgia deste culto ao valor monetário da vida. É hora de cada um fazer uma reflexão sobre sua relação com este novo deus. 

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