Jean Oliveira é jornalista, bacharel em turismo e funcionário público municipal em Araçatuba

Jean Oliveira: É no silêncio que se ouve o amor

Marília acordou cansada. Tinha trabalhado até tarde e mal teve tempo para sonhos. Olhou o mundo como se ele estivesse oco. E sabia exatamente o que lhe faltava. Era a presença de Dirceu, seu amor. Na véspera eles tinham decidiram por um ponto final a um namoro do avesso, que começara como brincadeira e que tinha tomado proporções que nenhum dos dois tinha mais controle.

A moça, mal saída da adolescência, tinha nos olhos ainda todos os sonhos do mundo. Tinha tempo para todas as realizações que uma pessoa na condição dela poderia ter. Era linda, jovem e apesar da pouca experiência já tinha posição de destaque na profissão. Dirceu, já passado dos quarenta, carregava todos os pesos do mundo no olhar. Tinha acumulado tantos ganhos e perdas que já não tinha tempo para sonhos.

Ela, barco. Ele, âncora. Um carregou e prendeu o outro em um relacionamento pontuado por noites perfeitas e dias passionais. Mas, agora, estava feito. Cada um chorou em seu canto, como relataram por telefone no final da noite anterior. Sabiam que estavam fazendo o certo. Sonhavam com um terremoto do destino que mudasse tudo e abrisse um novo horizonte.

Naquela manhã, depois de tudo, a menina caminhou pela casa vazia como se pudesse chegar a outro cômodo e se encontrar em outra realidade. Passeava pela casa vazia com pés descalços e alma nua. Na cozinha, passou os olhos na pia vazia, na mesa arrumada. Teve preguiça de fazer um café ou de preparar algo para comer. Sentou-se, sozinha. Duvidou que amara Dirceu de verdade. Convenceu-se que era apenas uma paixão.

O sol fazia um desenho engraçado nas paredes e ela ficou ali, vendo o mundo acontecer e o tempo passar à sua volta. O pensamento ficava entre o agora ex-namorado e as coisas do trabalho. Sabia que ele também estava perdido. Fora intenso os meses em que viveram este estranho e sublime amor.

Mas, agora, era hora de o barco ir para o alto mar. E a âncora finalmente ficar em sua solidão. A urgência da juventude era maior que a segurança do mudo que ele oferecia. A idade era a menor das diferenças. O que traziam nos olhos é o que distanciavam.

Quando o interfone tocou, a notícia não a surpreendeu. Era ele. Haviam terminado por telefone, por mensagem. Era preciso este encontro, o olho no olho. Marília ficou desconcertada, sem saber se se arrumava, se fingia que não esperava por ele. Como era praxe entre eles, destrancou a porta. Voltou para a mesa vazia, ficou olhando os desenhos das sombras na parede. Já não eram mais engaçados como há poucos minutos. Eram como se fossem um mapa do seu sentimento. Uma confusão de coisas.

- Como é difícil fazer o certo; pensou ela, checando o canto da cozinha e certificando-se que limpara bem os cantos da pia. Limpar a casa e alma é uma faxina que exige cuidado. No automático, deixamos coisas nos cantos que não deveriam ficar ali.

Dirceu finalmente rompera pela porta. Atravessou a sala, puxou uma cadeira e a olhou com olhos confusos. O silêncio foi o diálogo mais lindo que ambos tiveram desde que se conheceram. Olho no olho, sem o barulho da paixão. Ambos ouviam a si mesmos e ao outro sem precisar dizer uma só palavra.

O sol desenhava, na parede, sombras de um amor que não podia mais ser. Eram como um retrato de duas almas que sabiam que precisavam simplesmente fazer o simples, o certo, mas que estavam tão perdidas entre tantos sins e nãos, que não achavam mais o caminho da razão.

Ela o abraçou. Ficaram em silêncio por cinco minutos. Um ouvia o choro do outro. O amor finalmente se revelou. Precisaram de tantos meses, tantos sons, para finalmente se ouvirem no mais absoluto não-dizer.

Mas o certo precisava ser feito. Dirceu a beijou na testa, virou-se e chorando se foi. Marilia ficou parada no meio da cozinha, olhando o desenho da solidão que o sol desenhava na parede com a sombra das coisas reais da vida. O transe só fora quebrado quando o interfone tocou. Era Dirceu:

- Te amo!, disse ele.

- Te amo!, disse ela.

Ela, barco. Ele, âncora. Dois perdidos num oceano de impossibilidades, que ficam longe na maré alta da realidade, mas se encontram no silêncio da maré baixa. Os náufragos desta vida cotidiana juram que em noite de lua, faz-se um silêncio tão estrondoso que o amor deles ainda pode ser ouvido.

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