Ivan Ambrósio é repórter da Folha da Região

Ivan Ambrósio: Nova chance para recomeçar

Constantemente nos deparamos com casos de bebês que são abandonados pelos pais em lixeiras, praças, ruas ou em outros locais e, muitas das vezes, chegamos a pensar: “Isso não é difícil de acontecer por aqui”. Passavam-se sete meses da minha contratação pela Folha da Região para trabalhar em Birigui. Aguardava um dia tranquilo e que, ao final do expediente, pudesse ir embora despreocupado para Penápolis. 

Ledo engano. Aquela quinta-feira me reservava uma das reportagens que mais me marcaria. Assim que cheguei à sucursal, fui informado sobre um caso ocorrido durante a madrugada, de um bebê abandonado em uma calçada e de que o “herói”, ou seja, o responsável por encontrá-lo, foi o entregador da Folha, Luiz Fernando Soares Santana. Aquilo mexeu com meus sentimentos. 

Consegui ir ao local onde aquela criança, com poucas horas de vida, tinha sido deixada. A cada detalhe que Santana me contava, desde o seu itinerário de entrega de jornais à situação que se deparou, a emoção foi tomando conta, pois queria entender os motivos que fizeram com que a mãe abandonasse sua filha recém-nascida.

Durante a conversa, o entregador me mostrou a foto da criança — indefesa e enrolada em uns panos — e, na hora, veio o aperto no coração e a mente voltada para meu irmão, hoje com 10 anos, que eu sabia que tinha dormido aquela noite em sua cama quentinha, diferentemente daquela menina que passou a madrugada ao relento.

O assunto repercutiu em toda a região, mas eu ainda estava insatisfeito, pois faltava algo: saber os motivos que fizeram a mãe abandonar aquela criança. Cinco dias depois, a mulher, que mora em Araçatuba, entregou-se à polícia. Eu descobri o telefone dela. Pensei por alguns minutos como me identificaria e qual seria a reação dela quando começassem as perguntas. Disquei o número e aguardei o atendimento dela. Afinal, a mulher não havia conversado com ninguém da imprensa sobre o assunto.
 
Depois de alguns toques, ela atendeu e eu disse que era repórter da Folha. Falei que, se ela achasse conveniente, poderia me explicar os motivos que fizeram com que abandonasse a menina. Para meu espanto — pois, sempre imaginamos que a pessoa do outro lado da linha desligue o telefone — ela aceitou falar e revelou que tinha escondido a gravidez dos familiares e, principalmente, do namorado. Disse ainda que não fez nenhum acompanhamento médico e, na madrugada de 30 de abril, começou a sentir as dores e, sozinha, fez o próprio parto.

Mãe de outros quatro filhos - três meninas e um menino - a mulher ainda disse que ficou olhando, por horas, para a recém-nascida e que, depois, a colocou dentro de uma bolsa e, de moto, saiu de Araçatuba até Birigui, para deixá-la em algum lugar. Naquele momento, ela começou a chorar, enquanto eu continha a emoção.

Terminei a conversa já com uma opinião, a princípio, formada: ela nunca mais iria ver a menina. Confesso que era um pensamento um tanto quanto egoísta, que, depois, modificou-se. Afinal, com o passar do tempo, soube que ela estava indo amamentar a recém-nascida uma vez por semana na casa abrigo e até tinha escolhido o nome da criança: Vitória.
Em julho do mesmo ano, voltei a falar com a mulher, desta vez, para informar que ela havia retomado a guarda da filha. Fui para casa emocionado e, após tudo isso, duas questões ainda ficaram em meu pensamento: o Judiciário acertou neste ponto? A mulher merecia mesmo ter a filha de volta? A resposta aos questionamentos apenas o tempo dirá.

Espero que esta mulher aporveite a nova chance que teve para recomeçar a relação de amor e carinho com sua filha e desejo, do fundo do coração, que essa menina tenha, como o próprio nome dela diz, muitas “vitórias” pela frente.

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