Fernanda fala sobre alguns sinais de alerta para a doença

Idosos estão mais suscetíveis à depressão

Dentre as causas está sensação de inutilidade

Natural de Guaratinguetá (SP), Fernanda Fonseca Nunes Peres, formou-se em medicina pela Universidade de Ribeirão Preto, em 2006. Fez especialização em Clínica Médica pelo Hospital Beneficência Portuguesa e também em Geriatria pela Irmandade Santa Casa de Misericórdia, ambos na capital. Tem título de Especialista em Geriatria pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Atua em consultórios em Araçatuba e Penápolis. Nesta entrevista, esclarece sobre a depressão na terceira idade.
 
O que é a depressão?
Sentir-se abatido, de tempos em tempos, é algo normal e faz parte da vida. Quando o vazio e o desespero tomam conta do seu dia a dia, afetam a motivação e o sentido da vida, pode se tratar de depressão. Mais do que apenas o humor diminuído, a depressão pode afetar a funcionalidade e fazer com que o paciente perca o prazer e interesse pelas coisas. Deixa de se interessar pelos amigos, família, lazer, hobbies, trabalho, saúde. Sente-se esgotado o tempo todo e sem energia. Para diagnóstico de depressão, utilizamos o seguinte:
 
Estado deprimido: sentir-se deprimido a maior parte do tempo; Anedônia: interesse diminuído ou perda de prazer para realizar as atividades de rotina; Sensação de inutilidade ou culpa excessiva; Dificuldade de concentração: habilidade frequentemente diminuída para pensar e concentrar-se; Fadiga ou perda de energia; Distúrbios do sono: insônia ou hipersonia, praticamente diárias; Problemas psicomotores: agitação ou retardo psicomotor; Perda ou ganho significativo de peso, na ausência de regime alimentar; Ideias recorrentes de morte ou suicídio. 
 
De acordo com o número de itens respondidos afirmativamente, o estado depressivo pode ser classificado em três grupos: 1) Depressão menor: 2 a 4 sintomas por duas ou mais semanas, incluindo estado deprimido ou anedonia; 2) Distimia: 3 ou 4 sintomas, incluindo estado deprimido, durante dois anos, no mínimo; 3) Depressão maior: 5 ou mais sintomas por duas semanas ou mais, incluindo estado deprimido ou anedonia.
 
É uma queixa muito recorrente em seu consultório?
Sim. Cerca de 20% dos pacientes idosos têm algum transtorno de humor, sendo que 5% deles possuem depressão maior. Com o avançar da idade também ocorre o aparecimento de doenças clínicas, como doença coronariana, AVC, demências e doença de Parkinson, que aumentam o risco de depressão.
 
Quais as causas da depressão?
Pode estar relacionada com história familiar de depressão, sexo feminino, idade mais avançada, episódios anteriores de depressão, abuso e dependência de drogas e álcool, doenças crônicas, ansiedade. Também contribui para o início do quadro a falta de vínculos e suporte social, eventos estressantes da vida (viuvez recente ou outras perdas importantes, dores crônicas), morar sozinho e institucionalização (asilos, casas de repouso).
 
Por que o paciente na terceira idade está mais sujeito a ser depressivo?
Porque ele é mais susceptível a todas estas mudanças em sua vida, as doenças começam a aparecer, o uso de muitas medicações também pode contribuir. Outro fator muito importante é a aposentadoria. A sensação de menos-valia e ociosidade, com o tempo, geram sintomas depressivos. Por isso devemos nos preparar para este período, programando alguma atividade, seja ela física, intelectual ou mesmo um novo trabalho.
 
Como diferenciar sentimento de tristeza da depressão?
A depressão é uma transtorno afetivo com evolução clínica, que resulta em períodos de humor triste. Não é exatamente o mesmo que desânimo, mau humor, estresse e preguiça. Já a tristeza é um estado desconfortável causado pela perda de um parente querido, lembranças de momentos difíceis, fim de relacionamentos, podendo ser uma dor psíquica ou moral. Pode haver vontade de chorar, sentimento de impotência, desmotivação e angústia. Mas esse sentimento tende a ser passageiro, as pessoas até conseguem se alegrar com situações corriqueiras do dia a dia, até que esses sintomas vão diminuindo com o tempo e a pessoa consegue voltar à sua rotina normal.
 
É possível preparar uma pessoa para que ela envelheça com consciência tendo menores chances de se tornar depressiva?
O ideal é conseguir prevenir as doenças, evitar que elas apareçam, indo mais cedo ao geriatra ou ao seu médico de confiança para fazer os testes e exames necessários. O paciente deve ser orientado a manter hábitos de vida saudáveis como alimentação adequada, atividade física, bom convívio social e familiar. Deve também eliminar hábitos deletérios como tabagismo, alcoolismo, sedentarismo, ingestão de frituras, sal em excesso e alimentos industrializados.
 
Quais os riscos que corre um idoso com quadro depressivo, em seus vários estágios, de leve a grave?
Os riscos são diversos como sofrimento psíquico, aumento da dependência funcional de terceiros, aparecimento de doenças clínicas, isolamento social, piora da qualidade de vida, risco de suicídio e aumento de mortalidade. No Brasil, a taxa de suicídio é de 3,5-4,0 por 100 mil habitantes. Entre os idosos, a cada dois que tentam o suicídio, um consegue êxito, porque a intenção do auto extermínio é real e consistente e há maior eficácia do suicídio.
 
Como a família deve lidar com esse paciente?
Deve dar suporte e apoio emocional, verificar uso correto das medicações, insistir para que tente sair e ver outras pessoas, respeitando a vontade do paciente. Tentar fazer visitas mais frequentes.
 
Quais as particularidades da depressão na terceira idade? 
Nós, médicos, nos baseamos nos critérios diagnósticos que citei anteriormente, mas nos idosos o quadro costuma ser atípico. Normalmente, não preenchem todos os itens, mas muitos têm indicação de tratamento. Os sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças, podem ser vagos (como perda de apetite, falta de energia e insônia) e a alteração de humor pode não ser tão evidente. A depressão não faz parte do envelhecimento, como muitos acreditam. Ela deve ser diagnosticada e tratada corretamente.
 
No paciente geriátrico evitamos certas medicações que demoram a ser eliminadas, que causam muitos efeitos colaterais ou interagem com outras drogas. Iniciamos o tratamento com doses menores do que no adulto jovem e aumentamos gradualmente até a remissão do quadro. Muitas vezes é necessária adicionar uma segunda droga. 
 
A depressão está associada a alguma outra doença ou ela sempre será causa de outros problemas?
As duas opções podem acontecer. As doenças cardiovasculares (hipertensão, infarto, AVC), diabetes mellitus, insuficiência renal entre outras são fatores de risco, mas um paciente sem comorbidades também pode apresentar depressão. 
 
Há prevalência da depressão em idosos de qual sexo? Por que isso ocorre?
Há grandes prejuízos nos dois sexos, apesar de ser mais frequente no sexo feminino. Penso que no sexo masculino ocorra mais após a aposentadoria e se existe disfunção sexual.
 
Depressão sempre virá em forma de tristeza ou pode se manifestar como mialgias, por exemplo?
Pode manifestar-se como dor crônica, mialgia, contraturas musculares, cefaleia, entre outros, com sintomas de tristeza ou não.
 
Existem remédios que podem levar à depressão?
Não é tão frequente, mas devemos suspeitar de a causa ser por medicações se o paciente faz uso de Fenobarbital, Oxycodona, Aciclovir, Bupropriona, Alprazolam, Levodopa.
 
Qual o sinal de alerta para a família ou cuidadores entenderem que um idoso está depressivo e procurarem ajuda?
Apesar de muitas vezes o quadro estar mascarado e ser confundido com outras doenças e de as pessoas acharem que a depressão faz parte do envelhecimento, a família deve prestar atenção aos sinais mais sutis de sentimentos recorrentes de tristeza, isolamento social, perda de interesse pelas coisas que lhe davam prazer e até mesmo esquecimento. O quadro depressivo pode preceder a doença de Alzheimer, por isso a importância de identificá-lo e tratá-lo. Quanto mais rápido for instituído o tratamento, menores as chances de sofrimento do paciente e dos familiares e menores as consequências.