Hélio Consolaro, de Araçatuba, é professor, jornalista, escritor e membro da Academia Araçatubense de Letras

Hélio Consolaro: Louvação a Rachel de Queiroz

Todos que conhecem alguma coisinha de literatura brasileira, quando se fala em Rachel de Queiroz, surge logo o nome de seu primeiro romance, “O Quinze”, publicado em 1930. E é bom dizer que ela exerceu sua precocidade, pois, nesse ano, completara 20 anos de idade.

Com “O Quinze”, referindo-se à seca terrível de 1915, Rachel se engajou ao movimento liderado por Gilberto Freire que propunha chamar a atenção do Sul do Brasil para os problemas do Nordeste, principalmente a seca. O Manifesto Regionalista, de 1926, surgiu em Recife numa reunião de escritores e intelectuais nordestinos. E o primeiro romance do grupo foi “A bagaceira”, de José Américo de Almeida. Quem estudou bem literatura para o vestibular conhece bem essa parte da História da Literatura Brasileira. Rachel ficou marcada com a publicação de “O Quinze”.

Apesar de conhecer alguma coisa de literatura brasileira, nunca mergulhei nas obras dessa escritora cearense. Em 1980, comemorei o fato de a Globo transformar o livro “As três Marias” em telenovela, com adaptações, mas fiquei por aí, nem assisti à novela e nem li o livro. Na época, eu era um dador de aulas, na rede pública e na rede particular, não sobrava tempo.

Agora, sendo dono de meu tempo, caiu nas minhas mãos por meio da TAG (ou TAG - clube de leitura) “As três Marias” (1939). Comecei, me entusiasmei, foi o livro que li mais rapidamente dos volumes recebidos na caixinha. Leitura fácil de texto pobre? Não. Há um trabalho primoroso com as palavras, como atestou Mário de Andrade na época.

A exemplo de Mário de Andrade, eu vibrava com cada frase construída, revelando com poesia e estranhamento a vida de nosso cotidiano. Eis o que o modernista escreveu em sua crítica, em 1946, sete ano após a publicação de “As três Marias”: “As frases se movem em leves lufadas cômodas, variadas com habilidade magnífica. Talvez não haja agora no Brasil quem escreva a língua nacional com beleza límpida que lhe dá, neste romance, Rachel de Queiroz.”

A narrativa é simples, com caráter autobiográfico, sem malabarismos, mas o subtexto traz uma mensagem forte em defesa da mulher que deixa os homens prejudicados. Se a leitura do livro feita hoje revela isso, choca, imagine como foi em 1939, um ano após a mulher conseguir ser cidadã no Brasil e poder votar nas eleições. A personagem-narradora Maria Augusta (uma das três Marias) aborta, mas a autora não deixa claro se a ação foi involuntária. Pelo caráter libertário da protagonista, conclui-se que fora voluntário.

Rachel de Queiroz foi pioneira em vários aspectos da literatura brasileira. Havia um machismo tão grande, inclusive entre os escritores, que ao lançar “O Quinze”, acharam que o nome dela fosse o pseudônimo de um homem. Também foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira em 1977 na Academia Brasileira de Letras. Não foi uma moça pobre, era filha de fazendeiro cearense, meio parenta do escritor José de Alencar e ligadíssima à família do ex-presidente Castelo Branco.

Como cantou Manuel Bandeira: “Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo. Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor de nosso povo”.

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