Francisco Habermann é médico nefrologista e docente aposentado, membro da Associação Médico-Espírita de Botucatu e voluntário no Núcleo Assistencial Joanna de Ângelis, na mesma cidade. Descreve esta Face Espírita/10 Anos de Folha da Região

Francisco Habermann: Decisão

Fiquei impressionado com declaração de ilustre procuradora de Justiça aposentada que confessou: “Cansei de enxugar gelo”. Referia-se ela à interminável tarefa de conferir as legalidades e, invariavelmente, encontrar irregularidades, falcatruas, desvios, marcas de desonestidades e outras mazelas do procedimento humano diante das instituições governamentais. Não raro de complicadas consequências à sociedade.
 
Na defesa do Estado, cumpriu suas tarefas honradamente, foi homenageada pelo trabalho brilhante realizado sob sua atuação profissional ilibada, mas não quis permanecer na ativa. Pediu sua merecida aposentadoria. De volta à sua cidade natal, ocupou-se com atribuições voluntárias – como faz até hoje – dirigindo instituições de amplo alcance social e caritativo. Granjeia enorme prestigio social e significativo apoio da comunidade em seus projetos. Um exemplo de pessoa.
 
Por felicidade, conhecia-a desde sua juventude quando ela, cursando a Escola Normal (formação pedagógica), frequentava outro simultâneo da época, o Curso Clássico. Aluna brilhante que sempre fora, atuou como professora enquanto se preparava para o ingresso em curso superior. Foi admitida na Faculdade de Direito da USP (São Francisco), na capital paulista. Formou-se e, com mestrado e doutorado acadêmico realizados com destaque, fez brilhante carreira na Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo Estadual.
 
Um dia, resolvi convidá-la para fazer uma palestra-homenagem aos formandos de um curso superior na área biológica. Fiquei entusiasmado quando aceitou o convite. Criou-se uma expectativa. Salão ornamentado, congregação da instituição acadêmica presente, seus diretores à frente, professores e os formandos, todos engalanados. Após as formalidades cerimoniais, o dirigente máximo da solenidade convida-a para o pronunciamento tão esperado. Nestas ocasiões solenes, o expositor se dirige aos formandos. Trata-se de formal cumprimento pela conquista realizada e também a oportunidade de uma última recomendação, uma derradeira aula. Foi o que se seguiu.
 
Do auditório, ouvia-se apenas o ruído da respiração quase suspensa do grupo de formandos. Todos de olhar fixo na oradora, mulher imponente, respeitada e muito simpática. “Meus queridos e amados discípulos desta instituição renomada”. Um sorriso se abriu no semblante dos formandos. Fui testemunha desta belíssima cena. E também da seguinte.
 
“Vocês, agora, têm um desafio na vida profissional. Deverão reavaliar o significado de seus títulos, diplomas, medalhas, atestados…”. Ficaram todos muito sérios perante a surpresa do anúncio. Estava só começando. E continuou: “Na vida, o que vale é o que produzimos com o coração, com os sentimentos, com amor, com a compaixão sincera, respeitada sempre a ética. Nada disso é representado com papeis, diplomas, metais, placas, riquezas acumuladas ou outras marcas materiais…”
 
Disse muito mais, mas sua recomendação final marcou-me: “A cor destas ações éticas que emanam do coração é a da honestidade. Jamais desbota”. Seria bom que todo o Brasil assim entendesse, especialmente neste momento decisório. Obrigado, doutora!
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