Flávio Salatino é médico cardiologista e vereador em Araçatuba

Flávio Salatino: Informação em favor da vida

As notícias não são animadoras, principalmente para os quase 42 mil pacientes que aguardam ansiosos na fila de espera para receber um órgão doado. Os números até mostram que os transplantes veem crescendo no Brasil. Porém, num ritmo ainda lento.

Segundo levantamento divulgado em 27 de setembro, data em que é comemorado o Dia Nacional da Doação de Órgãos no Brasil, no primeiro semestre deste ano, mais de 1,6 mil famílias autorizaram a doação de órgãos. Mas essa realidade poderia ser muito melhor. Isso porque a taxa de recusa no País ainda é o principal obstáculo para efetivação da doação na maioria dos estados brasileiros. Estima-se que, hoje, 43% dos parentes de familiares mortos não autorizam a captação e, por consequência, o transplante de órgãos.

Outra triste realidade é que, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a taxa de recusa no Estado de São Paulo, o mais rico da nação, gira em torno de 37% — a maior entre todos os Estados. Mas no meio de tanta informação desanimadora, nascem pequenas pontas de esperança para aqueles que necessitam de transplante para continuar vivendo.

Em Araçatuba, a taxa de recusa é de 25%. Alta ainda, mas abaixo das médias nacional e estadual. Outra boa notícia é que, na cidade, o número de doações tem aumentado. Entre os anos de 2007 e 2014, a Santa Casa local, hospital que é referência regional na captação de órgãos, realizava, em média, uma única captação de órgão durante todo o ano. A partir de 2015, quando houve uma reestruturação da Comissão Intra-Hospitalar de Transplantes (CIHT), os números começaram a mudar.

No ano em que ocorreram as mudanças no CIHT, foram feitas 13 doações múltiplas de órgãos. Em 2016, a Santa Casa de Araçatuba realizou 14 captações. Neste ano, até 25 de setembro, foram feitas 10 doações.

Que reflexão podemos tirar de tudo isso? No Brasil, a falta de informação e de comunicação dificulta, e muito, a doação de órgãos. Hoje, a desinformação é o maior obstáculo a ser vencido pelos hospitais e médicos que atuam nessa área. Outro fator externo que atrapalha são os mitos gerados em torno do tema. Um deles tem relação com a morte encefálica (ou cerebral).

É importante explicar que a retirada do órgão (ou dos órgãos) só ocorre após a realização de uma série de exames, que realmente confirmem a morte cerebral do paciente. E a lista de procedimentos é enorme. Dentre os exames que são realizados no paciente, está o de apneia — no qual o paciente é desconectado do aparelho de respiração e aguarda-se um período para ver se ele (o paciente) não apresenta expiração espontânea.

E essa situação ainda pode melhorar um pouco mais na nossa cidade. Isso porque, muito em breve, o Hospital do Rim, que funciona anexo à Santa Casa, deverá realizar o primeiro transplante renal. Já existe uma estrutura criada faltando apenas o Ministério da Saúde autorizar e liberar verba para a realização do transplante.

Para nós, profissionais que lidamos diariamente com vidas, notícias como essas nos dão uma perspectiva de que é possível superar o desafio de informar e sensibilizar as famílias para que elas autorizem doações de órgãos. Principalmente porque elas dão esperança às pessoas que aguardam por um sopro de vida na fila de espera por um transplante.

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