Fernando Lemos é editor de Esportes e Brasil/Mundo da Folha da Região

Fernando Lemos: Dignidade a cada alvorada

Estava inicialmente difícil para este decano da Redação cumprir a tão instigante quanto fascinante missão a nós conferida pelo editor-chefe, Arnon Gomes. Escolher uma reportagem? Afinal são tantas, foram tantas coberturas. Tanto tempo... 

Bota tempo nisso. No total, com pequenos hiatos, 25 anos de casa. Jubileu de prata. Prata, jubileu. Fui à lista das bodas para ver qual o elemento celebrado em aniversários de 45 anos, como o da Folha da Região. Platina. Prata, Platina. De novo ao Google. A platina a Europa conheceu, nos idos de 1.700 DC, pela intrepidez científica de um tal Antonio Ibãnez de Ulloa. Ibanez? Bingo! Problema resolvido. Vamos de Ibanez! E que o pensamento mágico, em gratidão pelo “norte” casualmente surgido, me guie a partir de agora nesta escrevinhação, muito embora eu, como evolucionista convicto, creia com veemência no acaso e não dê muita bola para sortilégios, trevos de quatro folhas e pés-de-coelho.
 
Reconheço, inclusive, que parte das melhores pautas podem surgir de acasos, constituindo-se e adquirindo musculatura a partir da combinação entre a argúcia do jornalista e o “tônus factual” que a ocasião oferece. Explico. A matéria em questão, originariamente, conforme o combinado com a editora da época, Maria Antonia Dario, retrataria as dificuldades enfrentadas por pequenos estudantes mediante o clima frio daquelas manhãs. Frio que naquele outono estava estranhamente inclemente em Araçatuba. 

Era o outono de 2007. Vamos ao site da FR para verificar qual a data da publicação daquele material. Arrepio. Raio ainda mais intensamente congelante na espinha do que o flerte mercurial daquele outono com o zero Celsius: 10/06/2007. Hoje é 10/06/2017!. Agora, 15h43, é 10/06/2017! Faz exatos 10 anos! “Nada é por acaso”, exclamam Arnon e Alexandre Junqueira. 

Pode ser verdade. Mas a partir de agora não sou mais permissório do acaso. Sou escravo dele. E reconto o início daquela linda história. Que o repórter fotográfico Valdivo Pereira me ajudou a elaborar. Resumo da ópera: os meninos Ibanez, apesar de toda a pobreza, de toda a vida dura, são inteligentes e estudiosos, os melhores alunos de suas classes. Um deles lê até livro de Direito. No dia seguinte à publicação da reportagem, o pobre lar da família foi “entupido” por mantimentos doados por gente que se sensibilizou. Para ler a matéria completa, eis o link: https://goo.gl/9KKBjb. Então, eis que, lá pelas 6 da matina há dez anos, eu e Valdivo embrenhamo-nos no baixadão do bairro Alvorada. Deu nisto: 

“São 6h35 da manhã. Os primeiros raios de sol ainda não surgem, mas o pequeno Alexandre da Silva Ibanez, 7 anos, já inicia a caminhada diária até a Emef Fausto Perri, distante cerca de cinco minutos. Por baixo, uma camiseta de malha. Por cima, uma surrada peça de moletom. Vestuário inadequado, de tão leve, para a ocasião, embora ele esteja feliz da vida, nem aí para o clima. Afinal, na madrugada e manhã anteriores o frio fora bem mais intenso. 

Nas costas, Alexandre tem a mochila. Às costas, o ribeirão Baguaçu, que passa a 80 metros do ponto de que o menino parte, contribuindo para baixar a temperatura. E, a seu lado, os irmãos Fábio da Silva Ibanez Júnior, 15, e Daiana da Silva Ibanez, 14. Que andarão mais. Quinze, vinte minutos até a Escola Estadual Arantes Terra, onde cursam, respectivamente, o primeiro ano do Ensino Médio e a oitava série. 

Separam-se do caçula quando termina a subida da ladeira entre a casa e a escola desse. É naquele baixadão, em ponto extremo do Jardim Alvorada, que se esconde da cidade, àquela hora ainda dormindo, a realidade do dia a dia dos Ibanez. Um cotidiano de pobreza e dificuldades que escancara, nas mesmas proporções, a fibra e a dignidade de uma família que se pauta nos mais nobres valores para seguir na luta. E que luta...

Uma hora e dez minutos antes, às 5h25, a reportagem chega à casa de número 161 da rua Paula Souza. É lá, em três modestos cômodos, que os sete membros do clã que acaba de despertar nos recebem com fineza digna das ‘melhores famílias’. Aos olhos, o cenário poderia desolar muito mais não fosse a atmosfera positiva imposta à percepção pelos moradores. No cômodo principal, o televisor, sintonizado em programa educativo, um telecurso, salvo engano, já está ligado e inicialmente é responsável pelos únicos sons emitidos no local. 

Os Ibanez, pais e filhos, portam-se de tal maneira que poderiam se passar por gente de educação aristocrática. Nada de algazarra. Falam um por vez, sem interrupções, expressando-se com impressionante desenvoltura, dada a qualidade vocabular”.

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