Evandro Everson Santos é economista formado pela FAC-FEA (Faculdade da Fundação Educacional de Araçatuba) e PM aposentado

Evandro Everson Santos: Conselhos de Maquiavel

Fundador do pensamento e da ciência política moderna, Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi autor da célebre obra “O Príncipe”, considerada um manual para governantes que pretendem manter a estabilidade do seu governo. Considerados politicamente incorretos, seus conselhos sobre poder, política e liderança são atuais até hoje. Eles deixaram uma reflexão sobre a importância das forças de segurança de um reinado: “O sono do Príncipe depende do soldo da Guarda”. 

Posto isso, é impossível não pensar na crise de segurança pública que se arrasta há tempos no País. Ignorada pelos governos, com desdobramentos ainda incertos, referida crise vem causando danos irreparáveis à sociedade brasileira, como a perda de centenas de vidas. Uma breve retrospectiva de 2017 demonstra a gravidade dos fatos.

“Em 4 de fevereiro, o Estado do Espírito Santo via o início da maior crise de segurança pública de sua história. Foram, ao todo, 21 dias sem policiamento nas ruas. Nesse período, foram registrados 189 homicídios, de acordo com dados do Sindicato da Polícia Civil”, informou o jornal “Folha de Vitória”. O motivo da paralisação foi reivindicação de reajuste salarial, entre outros benefícios. Uma semana após o início da manifestação no Espírito Santo, o movimento se espalha para os Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. No Rio, além da reivindicação de reajuste salarial, outra pauta era o pagamento do 13º salário, que se encontrava em atraso. 

No Rio Grande do Norte, desde 19 de dezembro, policiais militares e civis se encontram paralisados. O motivo: reivindicação de melhores condições de trabalho e pagamento de salários atrasados. No último domingo, a paralisação dos policiais completou 20 dias. “Foram 106 mortes violentas nos primeiros 15 dias sem policiamento nas ruas”, destacou o jornal “Folha de S. Paulo” (07/01). Segundo a Cientista política e especialista em segurança pública, Ilona Szabó de Carvalho, “o primeiro passo para garantir a proteção dos brasileiros, em especial a dos mais vulneráveis, é valorizar a segurança como direito fundamental tão essencial quanto a educação e a saúde. Os custos sociais da violência já equivalem a 2,5% do PIB brasileiro”.

Em contrapartida, chama a atenção uma rebelião de presos, ocorrida no primeiro dia do ano, em Aparecida de Goiás (GO), que deixou saldo de nove mortos e 14 feridos. Tais óbitos provocaram mobilização em tempo recorde, reunindo o Tribunal de Justiça, a Defensoria Pública, o Ministério Público e a Comissão de Direitos Humanos da OAB-GO. Resultado: não haveria nenhum tipo de sanção aos presos que ainda estavam foragidos, em razão de as autoridades considerarem que a fuga se deu em um momento de medo. 

Enquanto isso a Justiça do Rio Grande do Norte determinou a prisão em flagrante dos comandantes das polícias militares e civis e dos bombeiros que incitassem a paralisação. Estabelecer prioridades não é tarefa simples, porém, diante desses fatos, saltam aos olhos qual é a prioridade. Tudo leva a acreditar que nossos príncipes não estão levando a sério os conselhos de Maquiavel.

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