Ester Mian da Cruz, de Araçatuba, é professora de língua portuguesa e mestre em literatura brasileira

Ester Mian da Cruz: Treinando a liberdade de expressão

A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” Clarice Lispector
 
O ensino da produção de textos há décadas modifica-se no Brasil. Desde os anos 1980, quando os intelectuais exilados voltam às universidades, há pesquisas tratando da modificação do ensino da Língua Portuguesa, em especial, o ensino de textos. 
 
Sobre isso, há o clássico texto de João Wanderlei Geraldi, “Da redação à produção de textos”, no qual o professor faz uma retrospectiva dessas correntes e propostas pedagógicas. Enfatiza que escrever implica a existência de um sujeito com valores, opiniões e que a escola deve ser primeiramente o espaço da interação do saber. 
 
Sílvia Barbi Cardoso, no livro, “Discurso e Ensino”, declara: “Pretendia-se superar o impasse desencadeado pela prática educativa anterior, que vinha dominando nossas escolas desde o início dos anos 70. Um ensino de caráter essencialista, conteudista, tecnicista e limitado à descontinuidade e fragmentariedade do livro didático — resumindo-se a técnicas de redação, exercícios estruturais, treinamento de habilidades de leitura —, dominava não só as escolas como também o processo de formação de professores.”
 
E é sob a influência desse ensino que materiais didáticos foram criados mesmo depois dos anos 1980. Em busca de resultados nos vestibulares, os autores dedicaram-se a criar “modelos” para os tipos textuais: narrativo, descritivo, dissertativo e argumentativo.
 
Hoje, mesmo com as teorias linguísticas, há evidente presença desses “macetes” nos textos dos alunos e os resultados das atividades de produção continuam aquém das expectativas, pois os estudantes não conseguem expressar suas ideias com lógica e criatividade.
 
Carlos Faraco e Cristovão Tezza, em “Prática de textos para alunos universitários”, afirmam que “no esforço de levar o aluno a dominar a língua padrão, a escola levou junto, grátis, um modelo completo de formas e fórmulas acabadas chamado de ‘redação escolar’”(2001; p. 191).
 
Ao debater o assunto, Samir Meserani escreve: “Muito mais forte como modelo, positivo ou negativo, do que os textos lidos na escola é o discurso do professor, a aula. “Prosa falada”, com audiência cativa e cotidiana, acaba sendo impregnada no repertório do aprendiz. Fixa não só conteúdos disciplinares mas também sua estrutura formal, sua retórica e estilo, impondo-se num processo de modelagem presente...” (2008; p.133).
 
Para Meserani, o texto do aluno representa na escrita a aula expositiva do professor, apoiada em dois modelos: o semântico e o sintático. Declara: “O modelo semântico busca a matéria, ‘o que dizer’, e corresponde à retórica clássica de invenção... Este modelo se funde com o modelo sintático da aula expositiva tradicional, correspondente à distributio, a ordenação do material num esquema.”
 
Podemos, por meio de alguns procedimentos, não resolver completamente o problema, mas fazer diminuir a distância entre forma e conteúdo nos textos escolares ao criar circunstâncias naturalmente existentes nas condições de expressão e de vida para a linguagem, ao limitar um pouco aquela visão de escrever por imitação, ou seja, ler os clássicos é fundamental, mas também tomá-los como modelos para a prática diária pode inibir nosso aluno; deixar de esperar que os alunos escrevam exatamente como ensinamos, porque isso é impossível, a produção textual não se limita a imitar, reproduzir e, enfim, desmitificar entre os alunos a crença de que só alguns “eleitos” podem escrever bem. 
 
Enfim, é nosso papel permitir que o aluno adquira liberdade para afirmar o que pensa com originalidade.
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