Marilurdes Martins Campezi, de Araçatuba, é membro da UBE (União Brasileira de Escritores)

Escrever: um ato de descobertas, por Marilurdes Campezi

Não sei se com você acontece o mesmo, mas quando quero escrever, as palavras parecem esconder-se em alguma dobra inacessível do tempo que me foi concedido para estar por aqui. Parece-me ter ficado, até aquele momento, à procura de minha própria voz, do meu próprio significado, e sinto que não consigo externar em palavras por causa de complicações alheias à minha vontade.
 
Talvez se eu tivesse encontrado alguém que me forçasse a responder à pergunta: “como é ser você?”, eu desataria o nó que existe aqui por dentro para responder ao curioso.
 
Tentei fazer a mim mesma essa pergunta e não me senti segura o bastante para expor a verdade. As palavras não se formaram e não pude escrever. Como é ser eu mesma?
 
Impossível saber toda minha verdade, encarar todos os meus erros, meus medos, meus segredos. Ninguém é tão perfeito, pois há sempre uma verdade de cócoras atrás de um biombo criado por nós mesmos para não nos desvendarmos diante dos nossos próprios olhos. A verdade fica ali, escondida sem que nos mostremos em nossa totalidade através das palavras. E elas ficam onde estão, sem perspectivas de serem encontradas e expressas pelos pensamentos subalternos dos sentimentos, dos fatos, dos atos, assim como da ficção. Mesmo para o escritor mais exímio, as palavras, no momento da criação literária, viram sopa de letrinhas. 
 
Alguém disse que as palavras caem de nossa boca e morrem aos nossos pés. Penso que nesse despencar elas viram estrelas cadentes, luzes de nossa verdade momentaneamente, até misturarem-se com a escuridão. Eis a dificuldade. É impossível colher as palavras da mesma forma que é impossível segurar as estrelas cadentes. 
 
Então, o que será de nós, “escrivinhadores”, se não formos tenazes perseguidores da palavra exata para a expressão do nosso pensamento? Persistir, insistir, teimar é o que fazemos no nosso dia a dia.
 
Clarice Lispector escreveu muito sobre o mundo das palavras. Elas eram a sua fascinação. Escolhê-las era complicado. João Cabral de Melo Neto comparou a palavra com o "Catar Feijão".
 
Eu, embora não famosa como outros, tenho as mesmas dificuldades. É impossível escrever sem buscar as verdades escondidas e as mentiras escancaradas. As dobras do tempo, como já citei, são estratificados esconderijos que se perpetuarão até o dia em que tudo nos será revelado. Acredito que as palavras, então, flutuarão à nossa frente, livres como bailarinas no palco, tão livres que poderemos escolher quais são as nossas. 
 
Um dia pegaremos as palavras em nossas mãos, como pequenos vagalumes a serem depositados no texto, para nossas ideias brilharem no mundo onde estaremos.
Agora, porém, vivo com a sensação de que algo está para acontecer e procuro, de antemão, as palavras que poderão narrar esses acontecimentos. 
 
E vem-me à mente uma canção com cujo autor concordo plenamente, quando diz: "Há um brilho que nasce para cada estrela que cai." A esperança está no brilho que risca o caminho da estrela cadente. Talvez ele ilumine a verdade ou ficção que eu gostaria de escrever.
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