Emília Goulart é membro da UBE (união Brasileira dos escritores e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Emília Goulart: O ponto

Ela parou na minha frente. Depois, como se tivesse esquecido o que iria dizer ou perguntar, continuou a passos irregulares, uns maiores e outros menores. Alguns metros adiante resolve voltar. Encarou-me novamente e como se buscasse pela memória alguma lembrança da minha fisionomia me examinou com tanta insistência e proximidade que me deixou assustada. 
 
Sem saber qual atitude seria a melhor a tomar, aguardei que um dos presentes me socorresse com alguma palavra que chamasse a atenção daquela infeliz. Deixa-me dizer onde eu estava e quem conhece bem Araçatuba e costuma fazer uso do nosso magnífico meio de transporte urbano, vai localizar com facilidade: é o ponto de coletivo mais próximo do centro, no início da Rua Joaquim Nabuco. É ali um dos pontos onde a conhecida e nada respeitosa TUA nunca estaciona junto da sarjeta e não tenta, em nenhuma hipótese, facilitar para as pernas já cansadas e reumáticas dos idosos. Mas ninguém quis chamar a atenção da pobre criatura desorientada, para si. 
 
A mulher ficou assim me observando por uns dois ou três intermináveis minutos. Se um dia alguém a olhar da maneira como ela me olhava, talvez entenda o que senti. Foi um sentimento estranho, como se alguém quisesse se apossar da minha alma. Procurei fugir daquele fulminante olhar, e me virei para o lado de onde viria os ônibus. 
 
A moça sentada ao meu lado se colocou de pé, assim que um ônibus surgiu na esquina e mesmo sabendo que não iria para o meu destino, pensei embarcar para sair daquele desconforto. Saltaria depois no ponto seguinte, mas, tal não aconteceu. A senhora que atentamente me examinava deu um passo adiante sentando-se do meu lado, segurou meu braço com força, me obrigando sem palavras a continuar sentada e despejou seu recado:
 
– Me diga se estou enganada, mas depois de a observar melhor, tenho certeza você é aquela que escreve para o jornal, coisas que eu concordo ou não. Muitas vezes você me dá saudade das coisas que não se usam mais.
 
Confesso que nunca me senti tão velha, mas segurei minha arranhada alto estima, para ouvir as críticas e quem sabe no final sobrasse algum elogio.
 
– Sabe, quando você falou da educação e respeito eu gostei muito.
 
Não precisou mais nada para que eu reconhecesse nela uma mestra, daquelas que certamente nunca disse um palavrão na frente dos alunos, que respeitava criança como um cidadão que ali estava em busca de conhecimento. Ela continuou:
 
– Embora não pareça, sou professora aposentada, pagando dívidas que não fiz. Meu salário foi diminuindo e hoje mal sustento o tratamento para os males de que padeço. Vendi meu carro. Nunca havia pensado em como seria triste depender de coletivos urbanos, que nada mais são além da sucata rejeitada por outras cidades e oferecidos a maior cidade da região. Vocês que escrevem para os jornais aproveitem melhor o espaço que lhes cabe e ajudem esta população sofrida. Muitos fazem da TUA seu trampolim político a várias eleições, mas não a usa como meio de transporte. Queria vê-los subir e descer esses altos degraus ao menos duas vezes por dia!
 
A distinta professora que a princípio me pareceu louca, é apenas mais uma moradora indignada com a falta de atenção dos políticos para os desmandos dos empresários desse meio de transporte. A desconsideração com seus eleitores, a falta de educação e capacitação dos motoristas que param longe da sarjeta não levando em conta a altura dos ônibus. Estão muito longe de atender os anseios da população.
 
Senhora professora aposentada aqui registrei seu desabafo e juntamente ao seu atrelo o meu e dos muitos usuários da TUA. Muitos idosos e até os próprios motoristas, ignoram que não se trata de um serviço gratuito a esta faixa etária, mas sim um direito adquirido e pago pela Prefeitura Municipal com os nossos recursos.
 
O ponto pode ser muitas coisas, inclusive o ponto final em muitas carreiras políticas.
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