Emília Goulart é membro da UBE (união Brasileira dos escritores e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Emília Goulart: Novamente é Natal

Novamente, é Natal! Nossas expectativas mudaram. Os anos vão passando e eu vou me tornando mais exigente. Já não me satisfaço com presentes materiais e não me alegro de promessas vãs que nunca são cumpridas. 

Não quero nada que no Natal seguinte esteja velho, esquecido em um canto qualquer ou obsoleto. Quero algo que me alimente de lembranças boas. Quero o seu sorriso, ou até uma gargalhada escandalosa para alegrar minha vida. Quero doces palavras para temperar meus dias. Algumas lágrimas salgadas de alegria, para me lembrar que ainda estou viva, contrariando as estimativas de vida para quem nasceu nos anos quarenta. Quero um abraço apertado que não deixe soltas pontas dos laços de amizade. Abraços nos unem, eternizam amizades e matam saudades. Ainda que isto nos pareça impossível, o abraço deixa raízes.

No ano que se aproxima, quero mais respeito com nosso planeta. Menos poluentes e agrotóxicos. Mais comprometimento dos humanos com a flora e a fauna. Vamos plantar a certeza de que estamos preparando um mundo melhor para todos. Que o amor e o respeito não sejam delimitados pela cor, raça, religião, condição financeira ou opção sexual. Vamos respeitar as diferenças, ser compreensivo e tolerante com as limitações do próximo.

Vamos fazer calar nosso orgulho e preconceito. Aprender a dividir com os menos favorecidos e deixar de arrogância diante dos fracos e oprimidos. Quero ver e ouvir orquestras e bandas tocando nas praças e nas favelas, substituindo sons de tiroteios. Que as crianças possam brincar alegres pelas ruas, sem que balas perdidas as alcance. Que os anseios de voltar para casa nunca terminem em pesadelos.

Parabéns, paz e saúde aos trabalhadores humildes que dividem os mesmos trinta mil reais, que a ministra desvaloriza, por várias famílias e sobrevivem com honestidade. Desejo um ano bem melhor para todos os alunos que alimentam o sonho de uma vida digna, embora nossos governantes nada façam, nem mesmo para proporcionar o convívio pacífico e seguro no ambiente escolar. Muitas vezes ordenando a volta para suas casas, atendendo ordens do comando do tráfico para fechar as portas das escolas. Parece que rasgaram o estatuto da infância e da juventude. Os direitos humanos montaram sede nas portas das prisões para melhor dar voz e segurança aos bandidos, enquanto a população sofre as consequências.

As crianças estão desassistidas. Os idosos que tanto contribuíram com a previdência perambulam ao léu em busca de assistência. Que a nossa teimosia nos permita vida longa para sairmos às ruas e gritar contra as injustiças.

— Não, não somos os culpados pelos desfalques, corrupções e empréstimos feitos à revelia dos contribuintes. Onde está o dinheiro pago em altos impostos? Vamos levantar um sonoro “bate o sino”. O INSS teria dinheiro suficiente, não fosse no passado, contribuinte compulsório das usinas hidrelétricas. Não fosse o cofre aberto para socorrer o governo em atos nada condizentes com o proposto pelo Instituto Nacional do Seguro Social.

Agora levantaram que há outro culpado pela escassez de recursos. São as mães que deixaram de ser as parideiras do sustentáculo da roubalheira. Desejo que os Reis Magos nos visitem e tragam honra aos poderes e poderosos. 

Dignidade e sabedoria ao povo brasileiro para escolher seus governantes e cobrar com ânimo os nossos direitos. Somos um povo calmo e esperançoso. Meu pai sempre pregou paciência e esperança, faleceu em1979, ainda na era do INPS. Ele dizia: “quando o povo perde a paciência, e vê a esperança minguar, não há poder que o detenha”. 

Não queremos nada além dos nossos direitos: saúde, segurança, educação e ver o Brasil livre dos corruptos. Se a ordem e progresso não convivem bem, nos devolvam a ordem, que o progresso será alcançado por esse povo tantas vezes ultrajado.

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