Emília Goulart é membro da UBE (união Brasileira dos escritores e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Emília Goulart: Lembrando pelos cotovelos

Cotovelos apoiados na janela, sorriso nos lábios, o sol acrescentando mais brilho aos cabelos prateados e o olhar acompanhando o vai e vem dos meninos, que não tinham o que temer, na rua tranquila.

O garoto no carrinho de rolimãs faz zigue-zague entre os jogadores de bets. Eles pedem que o garoto se afaste, mas ele os ignora. Irritados, gritam:

— Sai! Sai logo daí, seu porqueira! Não vê que está atrapalhando? 

O menino continua alheio. Sem sombra de dúvida, parece provocar. Difícil perceber o que ele tem em mente. Mas continua no meio dos xingamentos sem nenhuma atitude. Alguém se aproxima e o leva para a calçada. O jogo continua. Da janela, ela agradece a pessoa que o tirou dali e começa a cantarolar uma antiga marchinha de carnaval passado:

— Daqui não saio. Daqui ninguém me tira. 

Como as lembranças têm muitos quartos e muitas janelas, ela vai fechando uma, abrindo outra. Lá fora agora, um time de futebol corre atrás de uma bola de meia, sem se preocupar com os poucos carros que, por ali, transitam e se desviam das traves improvisadas com troncos de bananeiras. 

Tião, nervoso, chuta a trave ao ver a bola passar e a dona da cabeleira rala e prateada não contém a euforia e grita:

— Gooool! 

O jogo acabou. Nada naquela rua a prende a janela. Os carros passam em alta velocidade, quase voam sobre a lombada. Este cenário cotidiano ela dispensa. Fecha a cortina e recolhe-se. Dentro da sala, o apresentador do jornal dá as manchetes das notícias: mais uma criança foi vítima de bala perdida. Companheiro espanca mulher. Mais um policial foi morto por traficantes...

Aborrecida, ela muda de canal: hospital sem recursos para atender pacientes ameaça fechar, escolas estão fechadas. Aí ela dá uma pausa no som e resmunga:

— Quando não são as greves, são os bandidos. — Desliga.

Como ela gostaria de voltar à janela, apoiar os cotovelos e transportar suas lembranças para o presente. A velha casa de madeira sobre a palafita, o pasto verdejante onde os animais pastavam e o cocho de sal de onde ela furtava um pouquinho para comer com mangas verdes e laranjas azedas. Os garrotes de touros de raça, fonte de renda da família, uma beleza a parte. Sobre a cerca de aroeira em torno do curral, ela admirava o pai negociar a mercadoria.

Como ela gostaria de ainda ter o riacho a duzentos metros, a moita de bambu habitada por sacis. A mãe irritada diante da roupa mastigada pela vaca malhada, que pulava a cerca atraída pelas roupas esvoaçantes no varal.

A porteira aberta invoca muita saudade, melhor fechá-la. O jornal acabou. Talvez tenha algo melhor. Um bom filme seria ótimo, mas na falta, preencheria o dia com uma boa leitura. Aproxima-se da televisão e ouve a última notícia, que soa como um coice de touro no estômago: outro desvio de verbas públicas. Ela está indignada, não se acostuma com essa rotina. A verba, que deveria ser destinada à saúde, foi utilizada para comprar a permanência no poder.

Poder para nos massacrarem. Tiram-nos a saúde, a segurança a educação e tudo o mais que nos é de direito. Ela quer gritar, fazer-se ouvir. O coração dispara, falta-lhe o ar, aproxima-se da janela aberta. Lá fora, o surdinho da rua passava com seu carrinho recolhendo latas vazias. Vazia também foi sua expressão quando o motorista apavorado buzinou.

O coração dela bate mais acelerado, ela caminha até a mesa de telefone e disca para o Samu. Do outro lado, uma voz avisa: impossibilitados de atender, estamos sem combustível.

Por favor, socorro! Mandem uma ambulância. Por favor, façam alguma coisa. O caminhão não conseguiu frear e atropelou o surdinho do carrinho de rolimãs.

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