Emília Goulart é membro da UBE (união Brasileira dos escritores e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Emília Goulart: Cotidiano da opressão

Mulher, criatura estranha, maravilhosa e ingênua. O mundo nada lhes ensinou e elas continuam cometendo os mesmos enganos, frustrando quem esperou por uma mulher forte, lutadora pelos seus direitos e cumpridora das suas obrigações. Esta resignação, herança das avós precisa ser combatida. 

O príncipe continua no poder, e as bruxas por inveja ou incapacidade, não criaram nenhuma poção para desencantar os falsos príncipes que continuam acordando as princesas do seu lindo sonho, para transformá-las em criaturas sem vontade própria, acorrentadas ao jugo masculino, salvo raríssimas exceções.

- Homem que é homem, sustenta a casa com conforto. 

- Dizia a mãe para a filha, quando o ferro de engomar ainda era de brasas, e a água puxada do poço.

- Não estou aqui dando um duro danado para você ser lavadeira, sustentar marmanjo e apanhar de canalhas. Vê se arranja um bom marido, daqueles que tem condições de sustentar mulher e filhos.

- Olha quem fala!

- Eu, nenhum homem armou rede na minha sombra. Filha minha ninguém vai fazer de escrava. Se for para ser doméstica, fique solteira e vai trabalhar na casa dos outros. Lá você terá um salário, um quarto para morar, uma boa alimentação e tempo livre. 

A mãe respira e inspira para puxar dos pulmões a sobra do ar, depois de ter assoprado as brasas. Antes de continuar ela se pergunta o porquê das mentiras que ela sistematicamente conta? Seria para se convencer de ter feito uma boa escolha? 

- Meu marido me respeita e sempre cuida de nos. Nunca me traiu... Isso agora não vem ao caso, estou falando de você, preste atenção.

- Fica aí dormindo e não me ouve não. Esse rapaz, que você está namorando, é bonitinho, mas, tem dinheiro? Ou trabalha e tem um bom salário? Se não tem esqueça.

Enquanto ela falava a pilha de roupa passada aumentava.

- Vai arrumar a cozinha da janta para mim? Olha ainda falta um bocado para eu acabar de passar.

- Nossa se viu o tanto de roupa que dona Augusta mandou hoje. Se eu levantar bem cedo e o tempo ajudar quero ver se lavo e passo tudo amanhã mesmo.

- Leninha, estou falando com você. Vai arrumar a cozinha para mim filha. Se Deus ajudar, você arruma um marido igual o da dona Augusta. O marido dela é um biscateiro, mas, não falta nada a ela.

- Eu não quero um marido igual, para mim.

- Até que enfim a bela adormecida se manifestou. Agora aproveita que acordou e arruma a cozinha. 

- Não sei não, com essa safra piorada de homens, se arrumar um, igual seu pai, considere-se com sorte. Ao menos não me bate, elogia minha comida e diz ter muito orgulho de ser meu marido. Fico muito feliz!

- Cuidado mãe, vai queimar a roupa da freguesa.

- Nossa foi por pouco, se faço uma besteira dessas, teria que pagar e levaria uma boa reprimenda do Zé.

- Uai, mãe, o Zé não é o bonzinho? Não sei por que você defende tanto o pai?

- Foi modo de dizer!

Com este modo de dizer, elas retiram queixas e terminam assassinadas. Parece que as mulheres nasceram com o estigma da aceitação, para serem exploradas, apanharem caladas e amarem sem medida. Não podemos calar. Lutamos muito para votar, conquistar lugares no mercado de trabalho e assim poder ajudar nossos parceiros. Não podemos calar diante de tanta violência. São quinze mulheres assassinadas por dia no Brasil. Mais de doze mil são agredidas por hora.

Retiram as queixas por que as leis... Ora, as leis! A matança não encontra barreira enquanto os políticos apenas se preocuparem com as eleições, e os juízes com seus vencimentos. Nada vai calar a dor de uma mãe ou aliviar o sofrimento de uma família.

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