Emília Goulart é membro da UBE (união Brasileira dos escritores e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Emília Goulart: Comodismo

Quando indignada me encontro a rabiscar as páginas em branco deste meu velho caderno, não são com palavras dóceis de boas lembranças que vou preenchê-las. Reencontrar meu equilíbrio pode ser tarefa difícil ao iniciar mais uma manhã com a perspectiva voltada para os escabrosos e nefastos acontecimentos recentes na política nacional. Chego à conclusão de que somos comodistas demais. Isso para ser gentil. Quanto a minha pessoa... direi preguiçosa, sempre aceitando o que a vida me oferece, sem exigências, acomodada.

É triste ver o findar da juventude. Triste ver que nossas experiências não bastam para mostrar que ser honesto valeu a pena, se o que nossos jovens contemplam é que a corrupção enriquece e o crime, diante da impunidade existente, virou divertimento. Uma farra que enluta e envergonha a Nação. Os indefensáveis estão preocupados em arranjar subterfúgios para suas defesas de modo que, unidos, criam suas próprias leis, contando com a nossa ausência. 

Quanto a nós, ficamos, com nossa indignação vazia de ações, prostrados diante de uma televisão que nada tem de bom para nos oferecer. Noticiários repetidos e repetitivos, um ou outro capítulo de novelas também repetidas à exaustão e os programas que afrontam a inteligência do telespectador subjugando a todos ao nível de cultura dos nossos representantes. Comprovando a dificuldade das emissoras em manter um bom padrão, elas nos oferecem entre as programações de péssimo conteúdo o "BBB", o "Pânico na TV"(É essa a ideia?) e outros.

Vamos abandonar a inércia e ocupar os espaços que deixamos vazios nas câmaras e nas assembleias. Formar grupos e fortalecer o diálogo entre o povo e seus representantes. Sair deste maldito comodismo e lutar por nossos interesses. Somos o limite que falta para esses canalhas, formadores de indisciplinados, e baderneiros. Não é assim, conformados com tudo isso, e com nossa miséria cultural, que impediremos os trâmites catastróficos que nos ameaçam.

É preciso estar lá onde eles estão e não nas ruas arrebentando o patrimônio privado, prejudicando os comerciantes e impedindo o trabalhador de cumprir suas obrigações. Baderna é coisa paga. Paga por aqueles que fazem leis para se protegerem. É deles o benefício de nos assustar pois o medo nos leva ao recolhimento. Os motins nos paralisam por alguns meses na crença de que agora vai mudar. Nada acontece! Governadores não se empenham em nos dar segurança e em criar oportunidades de trabalho. 

Hospitais sem medicamentos, sem médicos e mão de obra. Escolas e repartições, sem servidores suficientes, sobrecarregam aqueles que serão agraciados com a nova idade para aposentadorias. Projetos de novas construções, que serão abandonadas, não são garantia de ensino e muito menos de saúde. Apenas sugerem que novas propinas serão distribuídas. 
Enquanto isso, outros tipos de acomodados fazem as malas, seguindo aquela velha máxima: os incomodados que se mudem.

Mas, não é isso mesmo que os traidores da pátria querem? Quem ficará?

Apenas os desfavorecidos, aqueles que sem força e poder de luta se resignam à volta da escravidão, desta vez totalitária.Vamos continuar no comodismo ou dar força a luta pela humanização dos nossos trabalhadores? Vamos defender os direitos conquistados para que não nos tomem como se fossem meros brinquedos.

Difícil não é. Querem um exemplo: em nosso próprio município, não se trata deste ou daquele partido ou governo, o que amedronta os políticos é sem duvida o saber dos nossos direitos e a ocupação dos nossos lugares. Câmara lotada é assustadora! Somos bem recebidos apenas nos trâmites sociais tais como: homenagens fúnebres, outorga de títulos de cidadão, nomeações de ruas com nomes de pessoas desconhecidas da maioria dos moradores, digo sem nenhum feito que merecesse esta distinção. 

É verdade que negligenciamos. Fomos omissos não fiscalizando nossos representantes. Mas não é tarde! Espero que não!