Cantora foi o maior nome da MPB entre os anos 1970 e 80; até hoje, sua interpretação é reverenciada

Elis, eternamente

Fãs dizem ser a melhor cantora brasileira

Pimentinha (apelido criado por Vinicius de Moraes), Elis-cóptero (apelido dado por Rita Lee) e Lilica. Estes são alguns dos apelidos que Elis Regina carregou ao longo de seus 36 anos, coincidentemente, a mesma quantidade de tempo de sua morte, ocorrida em 19 de janeiro de 1982. Conhecida por sua competência vocal, musicalidade e presença de palco, é considerada por críticos a melhor cantora popular do País entre os anos 1960 e o início da década de 80.

Há quem vai mais além, dizendo que é a melhor cantora brasileira de todos os tempos, sendo, frequentemente, comparada a cantoras como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Billie Holiday. Além de sua contribuição musical, Elis deixou os filhos João Marcello Bôscoli (do casamento com Ronaldo Bôscoli), Pedro Camargo Mariano e Maria Rita Camargo Mariano (ambos do casamento com o pianista César Camargo Mariano), hoje, todos nomes consagrados na música. 

INOVADORA
Elis foi a primeira grande artista a surgir dos festivais de música na década de 1960, descolando-se da estética da Bossa Nova pelo uso de sua extensão vocal e dramaticidade. Com os sucessos de “Falso Brilhante” (1975-1977) e “Transversal do Tempo” (1978), Elis Regina inovou os espetáculos musicais no País.

Inicialmente, seu estilo era influenciado pelos cantores do rádio, especialmente Ângela Maria. Após quatro LP’s gravados e sem grande sucesso — “Viva a Brotolândia” (1961), “Poema de Amor” (1962), “Elis Regina” (1963), “O Bem do Amor” (1963) — Elis foi a maior revelação do festival da TV Excelsior em 1965, com “Arrastão”, de Vinicius de Moraes e Edu Lobo. 

Seu destaque lhe garantiria o convite para atuar na TV e, pouco depois, o título de primeira estrela da canção popular brasileira, quando passou comandar junto com Jair Rodrigues o mais importante programa da MPB, o “Fino da Bossa”, na TV Record. Em 1967, ela se casou com o diretor do programa, Ronaldo Bôscoli. A partir de 1972, começaria um relacionamento com César Camargo Mariano, que duraria até 1981, em uma das mais bem-sucedidas parcerias da MPB.

CLÁSSICOS 
Elis Regina é reconhecida por diversos hits que marcaram época. Gravou com Tom Jobim o álbum “Elis & Tom” (1974), considerado um dos melhores LP’s da história da MPB. No ano seguinte, com o espetáculo “Falso Brilhante”, que mais tarde originou um disco homônimo, atingiu enorme sucesso. Lendário, tornou-se um dos mais bem sucedidos espetáculos da história da música nacional e um marco definitivo da carreira.
 
Outro êxito veio com o espetáculo “Transversal do Tempo”, em 1978, durante um clima politico que fervilhava. O “Essa Mulher” em 1979, com direção de Oswaldo Mendes no Anhembi em São Paulo e correu o Brasil no lançamento do disco.
Já “Saudades do Brasil” (1980) foi sucesso de crítica e público pela originalidade, tanto nas canções. Sem dúvida, o maior de seus sucessos foi “O bêbado e a equilibrista” (João Bosco e Aldir Blanc), considerado por muitos como hino da anistia.

MORTE
Em janeiro de 1982, a MPB perdia Elis Regina, que, aos 36 anos, deixava um obra invejável na música. Existem controvérsias e contestações sobre as causas de sua morte com relação às altas doses de cocaína e bebidas alcoólicas, fato que chocou profundamente o Brasil na época. 

HOMENAGENS
Em 2005, foi inaugurado em Porto Alegre, na Casa de Cultura Mario Quintana, um espaço memorial para abrigar o Acervo Elis Regina. Trata-se de uma coleção de fotografias, artigos, objetos, discos e outros tipos de materiais relacionados à vida e à obra da cantora, tendo sido doado por fãs, jornalistas e amigos de Elis.

Em 2013, foi eleita a melhor voz feminina da música brasileira pela Revista Rolling Stone. A cantora foi citada na lista dos maiores artistas da música brasileira, ficando na 14ª posição, sendo a mulher mais bem colocada. Em novembro do mesmo ano, estreou um musical em sua homenagem, “Elis, o musical”.

Elis Regina foi a grande homenageada da Escola de Samba Vai-Vai em 2015, com o enredo “Simplesmente Elis - A Fábula de Uma Voz na Transversal do Tempo”, levando a escola ao décimo quinto título em São Paulo. Em 2016, foi lançado o filme “Elis”, tendo Andreia Horta como a famosa intérprete. 
 

Artista ainda influencia jovens cantoras

A cantora Elis Regina foi, e ainda é, referência na vida de muita gente. A jornalista e cantora Talita Rustichelli é uma das vozes de Araçatuba que mais admira a obra de Elis. Talita conta que a cantora sempre esteve presente em sua vida. “De certa maneira, como na vida de muitos brasileiros, Mas, foi na adolescência que passei a prestar mais atenção”, relembra. O primeiro disco que Talita lembra de ter tido contato foi o “Falso Brilhante”, lançado em 1976. 

“Minha mãe tinha um CD e, quando colocava para tocar, eu ficava muito atenta e admirada com a força daquela voz. Eu não tinha a ideia exata do que era aquele furacão todo, porque eu tinha uns 10 anos e não me dava conta de sua importância, mas a minha sensibilidade me dizia de alguma forma que aquela mulher era uma artista rara”, relembra a também cantora.

Ela considera que Elis “não media esforços” para cantar e acredita que "nada era mais importante na vida dela que cantar". “Essa certeza que ela tinha de que realmente nasceu para ser uma estrela competente da música brasileira. Elis cantando é mergulhar num universo de intensidade, a gente realmente consegue sentir a música”, enaltece a cantora, que já leu a biografia de Elis, o que a levou a crer que ela era “uma figura bem peculiar”. E ressalta: “Ao mesmo tempo em que ela era segura no palco, e sabia o que queria, ela teve algumas inseguranças relacionadas a questões emocionais, a vida familiar, e ficava na defensiva quando achava que alguma cantora era muito boa”.

PREFERIDAS 
Talita classifica como canções preferidas do repertório de Elis “Velha Roupa Colorida”, “O Que Foi Feito Devera (de Vera)”, “Comunicação” e a clássica “O Bêbado e a Equilibrista”. Outras, porém, não foram listadas. 

“Ela continua sendo um reflexo do potencial da música brasileira, tanto em relação à sua técnica vocal, sua afinação perfeita, sua maneira de interpretar as músicas, quanto em relação ao repertório grandioso que ela selecionava para cantar”, conta. 
“Elis é inspiração para muitas cantoras, sobretudo para as que levam música a sério, as que levam a música nas veias. É claro que, atualmente, o tipo de interpretação que a gente vê nas novas cantoras (mesmo as da chamada “nova MPB”), é completamente diferente", finaliza. 

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