Victória: "O tratamento consiste em mudanças de estilo de vida, bem como o uso de remédios que aliviem os sintomas"

Dores no estômago? Pode ser gastrite...

Fatores que envolvem origem da patologia são variados

Vários são os fatores envolvidos na origem da gastrite. As queixas mais comuns são queimação e dor de estômago. Porém, apenas esse desconforto esporádico não é o suficiente para chegar ao diagnóstico final, mas serve de aviso para procurar um especialista o quanto antes. 
 
Em entrevista à Folha, a gastroclínica Victória Montecinos Maciel Rodrigues, formada em Gastroenterolgia e hepatologia pela Santa Casa de Misericórdia de Sao Paulo e Beneficiencia Portuguesa de São Paulo, que atua em ambulatórios de especialidades desde 2011 na região, explica como a gastrite se desenvolve e fala sobre as formas de poder evitá-la. 
 
O que é gastrite? 
Gastrite é a inflamação da mucosa do estomago, que pode ser aguda ou crônica, a qual só pode ser confirmada com a biópsia do estomago e posterior estudo microscópico. As queixas mais comuns relacionadas ao termo "gastrite" são dor e queimação na região do estomago, empachamento e peso após alimentação , sensação de saciedade precoce entre outros. As pessoas também utilizam esse termo para descrever outras alterações do tubo digestivo, as quais não necessariamente são provenientes de uma gastrite, como por exemplo, dispepsia funcional ou refluxo gastro-esofágico.
 
Como podemos evitá-la?
Os sintomas descritos pelos pacientes, de um modo geral, podem ser amenizados ou até abolidos com medidas comportamentais como evitar a ingestão de gorduras, açúcar, café, álcool, frutas cítricas, refrigerante, alimentos com excesso de condimentos, evitar também o uso de algumas medicações (como antiinflamatório). Fracionar a alimentação diária e redução do peso também ajudam a amenizar os sintomas. Porém, o tratamento específico deve ser individualizado após ser determinada a causa específica da gastrite.
 
Quais os tipos mais comuns?
Os tipos mais comuns são a gastrite por Helicobacter pylori, gastrite causada por antiinflamató-rios, e a gastrite atrófica. Existem também as lesões da mucosa gástrica relacionadas ao uso de medicações, as gastropatias, as quais também podem cursar com os mesmos sintomas de gastrite. Na causada pelo Helicobacter pylori,quando um indivíduo se infecta pelo H. pylori a infecção se dá por contato pessoal e ocorre um processo inflamatório no estômago. Este processo pode ser agudo ou se tornar crônico. É importante ressaltar que a gastrite crônica superficial pode, ao longo dos anos, evoluir para gastrite atrófica e metaplasia intestinal, que é quando as células gástricas se diferenciam em outro tipo de célula que não são encontradas neste tecido habitualmente. Outra consequencia relevante da infecção pelo H pylori é o aparecimento de alterações que estão relacionadas com aparecimento de linfoma MALT gástrico.
 
E quanto ao diagnóstico?
O diagnóstico da infecção pode ser feito pelo próprio exame histológico (de tecidos) da mucosa gástrica. Como para o diagnóstico da gastrite se exige exame endoscópico, não vamos aqui discutir os métodos não invasivos para diagnóstico da infecção. Vale a pena, contudo, ressaltar o teste respiratório com uréia marcada. Com carbono radioativo como o mais adequado para controle de tratamento, por apresentar elevada acurácia e não ser invasivo. Com relação ao tratamento, sabemos que há consenso de que o H. pylori deve ser erradicado quando estiver associado a úlceras, ao adenacarionoma e ao linfoma gástrico. Nos casos em que somente gastrite é encontrada, a indicação de tratamento é controversa. 
 
Em relação à gastropatia por antiinflamatórios não esteróides (AINEs)?
Estima-se que mais de 30 milhões de pessoas no mundo utilizam AINEs a cada dia. Estes agentes podem levar à hemorragia da mucosa, erosões e ulcerações gástricas. Mais da metade dos usuários destes medicamentos apresentam sintomas dispépticos em algum momento do tratamento e 2% apresentam hemorragia digestiva alta anualmente. Apesar do risco individual ser baixo, a ampla utilização destes medicamentos é responsável por um número significativo de internações por complicações advindas do uso. Os achados endoscópicos mais comuns são hemorragias, erosões e úlceras. Diversos estudos indicam uma prevalência de úlcera que varia de 6% a 30% dos usuários. As lesões podem ocorrer em todo o estômago, mas predominam no antro. Aproximadamente 25% dos pacientes em uso da medicação tem sintomas dispépticos. Esta incidência é maior no início do tratamento. Nos indivíduos com úlcera, 40% apresentam sintomas. 
 
Como se desenvolvem? 
Basicamente, a gastrite surge quando existe um desequilíbrio entre os fatores agressivos e os fatores protetores da mucosa gástrica.
 
Existe algum tipo de gastrite que seja mais perigosa ou que possa causar um maior dano ao organismo? 
Todas as gastrites passíveis de tratamento que não são tratadas de uma forma adequada podem propiciar grandes danos ao organismo, podem, inclusive, levar ao surgimento de úlceras e, nos casos mais graves, ao câncer gástrico.
 
Há tratamento?
Sim. O tratamento consiste em mudanças de estilo de vida associado ao tratamento específico direcionado à causa.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.362655