Em caso de sintomas de picadas de escorpião, recomendável é procurar posto de saúde, diz Smolentzov

Combate a escorpiões: diretor de hospital recomenda cidadania em vez de inseticida

Médico diz que escorpiões só vão deixar de proliferar com conscientização

A morte de uma menina de 4 anos após ela ser picada por escorpião no último dia 15, quando caminhava com a família pela rua dos Fundadores, em Araçatuba, ao sair de uma igreja, provocou uma verdadeira corrida às unidades de saúde do município na semana que passou. Pelo menos outras quatro crianças receberam atendimento médico por suspeita de picada de escorpião na cidade, algumas delas inclusive ficaram internadas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Para o diretor da Santa Casa local, Sérgio Smolentzov, essa busca por atendimento já era esperada, pois a situação gerou uma “síndrome de pânico”. Entretanto, ele recomenda que, em todo caso suspeito, a pessoa deve, sim, procurar atendimento médico. Confira abaixo a entrevista concedida por ele à Folha da Região, explicando sobre os sintomas e o tratamento para picada de escorpião:

Quando os pais devem levar os filhos ou os adultos devem ir ao hospital se suspeitar de picada de escorpião?
Havendo qualquer acidente com inseto, seja escorpião, aranha ou outro, a pessoa deve procurar socorro médico. Mesmo se não se identifica o que aconteceu, a pessoa deve ir ao hospital, que avaliará se é só dor local, se há manifestação sistêmica e se justifica outra medida em caso de suspeita mais grave. Não é preciso ir direto à referência, que é a Santa Casa, pode procurar um posto de saúde que o médico vai avaliar a medida a ser tomada.
 
Essa precaução excessiva por parte da população é correta? Houve alguma ocasião em que os escorpiões causaram tanta preocupação em Araçatuba ou é a primeira vez?
A preocupação é reflexo de uma síndrome de pânico, porque, em uma semana, duas crianças morreram. Toda mãe que tem uma criança fica achando que pode acontecer com seu filho. Então, isso é justificável e uma resposta esperada. Porém, o poder público tem que mostrar as medidas que estão sendo tomadas, que a situação está sob controle e acalmar a população. Araçatuba já convive com escorpião há muito tempo, mas foi a primeira vez que ocorre a morte de duas crianças em curto espaço de tempo.
 
Como deve proceder quem suspeitar de picada de escorpião?
Se a pessoa não viu o escorpião, tem que procurar posto de saúde ou o serviço de urgência. Isso, se for reação local e ela estiver bem. Mas, se encontrou o escorpião, deve procurar o pronto-socorro imediatamente para as providências.
 
Quais os principais sintomas causados em quem é picado pelo escorpião?
O sintoma local é a dor, muito forte. Quando é só localizada, se restringe a dor e edema no local, mas quando vai para a circulação, em caso de criança, que tem pouco peso e o escorpião a picou tem concentração alta de veneno, os sintomas são cardíacos, neurológicos e pulmonares. Ela fica em confusão mental, não consegue se comunicar, tem dificuldade respiratória e arritmia cardíaca. É a chamada lesão grave, pois tem a leve, moderada e grave. Nesse caso, ela tem que ser medicada imediatamente, tomar soro e ir para a UTI usar os recursos, pois o caso é gravíssimo, como vimos nas duas crianças.

Existe algum exame para constatar a picada de escorpião? Como é feito o diagnóstico?
Não existe exame específico e o diagnóstico é clínico. Quando se identifica o escorpião e ele é trazido junto com o paciente, é mais fácil. Quando há suspeita, existem lesão, dor intensa e os sintomas relatados, há 95% de chance de ser acidente com escorpião, dentro da situação atual.
 
Nas redes sociais, surgem várias correntes a respeito do assunto. Em uma delas, sugere-se que seja colocado gelo sobre o local picado para atrasar a circulação do sangue. A medida é eficiente?
Quando se coloca gelo, promove a diminuição da quantidade de sangue que chega ao local. No ponto de vista fisiológico, não faz mal, faz bem, pois, teoricamente, diminuiria a absorção do veneno. Então, gelo não é errado. Porém, se a pessoa foi picada por escorpião, não é o gelo que vai resolver e não vai impedir que tenha um caso grave.
 
Quais outras medidas podem ser adotadas enquanto a vítima aguarda o atendimento médico?
A medida é levar para o hospital, pois terá que sedar para tirar a dor. Às vezes, tem que fazer anestesia local, devido à dor ser muito intensa. Se o caso é moderado, é obrigado a fazer o soro, que é um antídoto, e nos casos graves, tem que internar para fazer a observação.
 
Em que consiste o tratamento? Apenas na aplicação do soro?
São dois eixos de tratamento. Um deles é para as complicações do veneno. Precisa tratar o pulmão, as complicações cardíacas, as complicações neurológicas... É o tratamento sintomático, utilizando aparelho para dar tempo de passar o efeito do veneno no pulmão e drogas para a arritmia. O outro eixo é o soro, que é específico e usado para neutralizar o efeito do veneno na circulação.
 
Existe alguma contraindicação a esse soro? Causa algum efeito colateral? Há algum problema se a pessoa tomar o soro sem ter sido picada por escorpião?
As complicações do soro são baixas, mas ele não pode ser usado indiscriminadamente, pois pode desencadear reações alérgicas. Por isso, nos casos leves, não há indicação para fazer o soro. Já nas formas médias e graves têm indicação. E quem define se vai fazer o soro é o médico. Por isso, não pode, em todo lugar, haver soro, sair aplicando, porque se esgota uma arma terapêutica forte e vai faltar para quem precisa. Portanto, não há consequência quando está indicado, mas o uso indiscriminado pode desencadear reações de hipersensibilidade, alergia e até ser fatal. O soro deve ser aplicado em ambiente hospitalar e com indicação. 
 
Após o tratamento, o paciente pode desenvolver alguma sequela?
Não. Se o tratamento conseguiu superar todas as ações do veneno do escorpião, a pessoa segue a vida normalmente.
 

É preciso aprofundar o grau de cidadania, segundo médico

Enquanto muitos cobram ações do poder público e pensam até em utilizar inseticidas para combater a infestação de escorpiões em Araçatuba, o diretor da Santa Casa local, o médico Sérgio Smolentizov, entende que é necessário aprofundar o grau de cidadania da população.

Para ele, assim como o combate à dengue, no caso dos escorpiões, são necessárias ações mais verticais do poder público e conscientização da população. “Como se discute o consumo de energia elétrica e de água, deve-se discutir as doenças transmissíveis. Isso é cidadania. É melhor do que procurar fórmula mágica e não cumprir a obrigação em casa”, diz.

O médico ressalta que o escorpião tem hábitos noturnos, é muito bem adaptado durante o processo evolutivo, um predador da barata e não tem como matá-lo com inseticidas. “Por ter hábito noturno, ele se esconde em folhas, no lixo e em outros materiais, da mesma forma que o mosquito da dengue vive em água parada. Tem que ter o hábito de limpeza dentro de casa. Se isso não acontece, aumenta a população de escorpião”, alerta.
contexto

ESCOLAS
Smolentzov lembra que tem se falado muito dos casos que ocorreram em escolas da cidade, mas reforça que elas fazem parte de um contexto do bairro. Assim, se o ambiente escolar for limpo, mas o entorno tiver locais propícios para a proliferação de escorpiões, há o risco de eles irem para a escola.

Por isso, o médico reforça que a principal recomendação para combater o escorpião é a limpeza. Ele diz que muitos condomínios mantêm galinhas-d’angola em áreas comuns, o que contribui para combater os escorpiões. 

“Onde tem barata, resíduo alimentar e folha, é criadouro de escorpião. É hora de a população entender que cidadania é importante no que diz respeito a conservar seu espaço, porque assim preserva o espaço do coletivo. Se não tem cuidado de limpeza, pode ter escorpião em sua casa e ele vai para o quintal do vizinho”, conclui.

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'COMBATE A ESCORPIÕES: CIDADANIA EM VEZ DE INSETICIDA'
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