Da água para o vinho

Na política brasileira, certas alianças estão ligadas à distribuição de cargos

Cena típica da política nacional: ontem, quem era adversário, agora, é aliado. Um episódio nesse sentido, acaba de acontecer em Araçatuba. Jaime José da Silva (PTB), vereador em seu quarto mandato, tornou-se, recentemente, líder do prefeito Dilador Borges (PSDB) na Câmara. 

A surpreendente parceria ocorre em um momento no qual a gestão tucana vê sinais de abalo na tranquilidade que marcou sua relação com o Legislativo no primeiro ano de mandato. Vereadores considerados governistas num primeiro momento, como Lucas Zanatta (PV) e Flávio Salatino (PMDB), começam a adotar postura mais independente.

Jaime, por sua vez, é um político tarimbado. Sempre governista, tendo assim se comportado nas gestões de Germínia Venturolli (1997-2000), Jorge Maluly Netto (2005-2008) e Cido Sério (2013-2016), o petebista sabe, como poucos, no parlamento, fazer a defesa de um governo. Uma característica que tem, principalmente, pela sua boa oratória.

Em entrevista à edição de domingo (11) da Folha da Região, o parlamentar — um fiel aliado de Cido Sério, maior desafeto político de Dilador — diz que aceitou o papel de líder da atual gestão num momento em que procura flexibilizar sua conduta. Delegado de polícia aposentado, Jaime é conhecido pela postura rígida; para os críticos, autoritária.

Autoritarismo, aliás, era do que o vereador acusava Dilador e companhia há pouco mais de dez anos, quando o atual prefeito, então um empresário debutante na política, assumiu o comando local do PSDB por intervenção determinada pelo diretório estadual do partido. 

A medida, em 2007, provocou uma debandada de nomes ligados ao prefeito da época, Maluly Netto, no PSDB. Na ocasião, a ala tucana vinculada a Jaime chegou a ir à Justiça e argumentava que Dilador estava pavimentando sua candidatura a prefeito.

É desejável que lideranças políticas se entendam. Quem ganha, com isso, é população. Entretanto, aos olhos de quem espera coerência na política, certas alianças precisam de melhor esclarecimento. Especialmente, pelo modo tradicional de se garantir a governabilidade no Brasil, muitas vezes ligado à distribuição de cargos na administração pública ou outras benesses a parlamentares.

Espera-se, portanto, que a aliança de Dilador com Jaime caminhe na contramão dessa troca de favores tão nociva para a política e represente um avanço na capacidade de diálogo por parte do chefe do Executivo. Só assim será capaz de mostrar que os atuais governo e legislatura estão, de fato, preocupados em fazer diferente.

LINK CURTO: http://folha.fr/1.393696

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