Cony deixou uma lacuna no mundo literário, com a sua morte, ocorrida na última sexta-feira

Cony por aqui

Escritor colecionava admiradores e tinha vínculo familiar na região

Vítima de falência múltipla dos órgãos, o escritor Carlos Heitor Cony deixou uma lacuna no mundo literário, com a sua morte, ocorrida na última sexta-feira (5), aos 91 anos. A perda mostrou também o quanto o jornalista, cronista e colunista era idolatrado na região de Araçatuba, onde mantinha amizades e vínculos familiares. Nas redes sociais, vários foram os escritores locais que revelaram a admiração pelo autor carioca. 

Um deles, o professor, advogado e ex-prefeito de Penápolis João Luis dos Santos é enfático. "Todos nós devemos enaltecê-lo (Cony)", afirma. João Luís conheceu o trabalho de Cony quando ainda estava no curso de letras. Na ocasião, o professor sugeriu que os universitários procurassem escritores contemporâneos, todos do século 20. "Li 'O ventre', 'Pilatos' e outros. Foi nesse período, em que fui desafiado a estudar autores contemporâneos, que caiu na minha mão o Cony", conta o penapolense.

Sobre as crônicas, gênero em que Cony ficou mais conhecido, o ex-prefeito relata que "ele era um escritor que retratava o cotidiano, principalmente do Rio de Janeiro, onde morava" e destaca o afinco em criticar políticos, independentemente dos partidos. "Como cronista, podemos destacar a visão crítica. Ele foi crítico de Lula, FHC, Dilma, que estão mais alinhados à esquerda. Sarney e Collor dispensam comentários. Combateu a arbitrariedade da ditadura. Ele mostrava o que dava errado e podia dar certo", elucida João Luís.
 
“O Cony via o mundo com um olhar depurado, significativo. Era bom que tivéssemos vários escritores como o Cony. Seria ótimo para a política e para a sociedade”, finaliza.

ARAÇATUBA
Cony tinha uma sutil ligação familiar com Araçatuba. Morador da cidade, Alex Sei Gárcia Tosta, filho do escritor Hugo Tosta, é casado com Andreia Cony, sobrinha do cronista. Na lembrança da família, fotos de arquivo com a presença do grande nome da literatura brasileira solidificam o vínculo. 

E por falar em família, a vocação para as letras estava no sangue. Cony era filho de Ernesto Cony Filho, também jornalista, e Julieta Moraes Cony. Desde 2000, integrava a ABL (Academia Brasileira de Letras).

OBRA 
Nascido em 1926, até 1954, estudou em um seminário bairro Rio Comprido, em sua cidade natal. Porém, abandonou a instituição antes de se ordenar padre. Chegou a cursar a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro), mas interrompeu os estudos também antes de concluir. Teve sua primeira experiência como jornalista no "Jornal do Brasil", cobrindo férias de seu pai. Por um breve período, ocupou cargo público na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Em 1952, entrou como redator na Rádio Jornal do Brasil. Oito anos depois, foi para o "Correio da Manhã", jornal em que publicara o polêmico editorial "Basta!" contra João Goulart, em março de 1964. 

O texto dava suporte às manifestações que levaram à queda de Jango, então presidente da República. No entanto, Cony tornou público seu arrependimento pelo apoio à queda de Goulart, pois resultara no golpe militar de 1964. Logo, o jornalista veio a se opor abertamente ao regime militar, sendo vítima dele próprio. Foi preso por seis vezes durante a ditadura. Como editorialista do "Correio da Manhã", escreveu textos de crítica aos atos da ditadura militar. 

Cony encarnou como poucos a função de escritor contratado de editoras brasileiras. Nos romances, produziu títulos como "O ventre" (1958), "A verdade de cada dia" (1959) e "Tijolo de Segurança" (1960). Dos ensaios biográficos, produziu, em 1972, "Quem Matou Vargas" e em 1982, "JK - Memorial do Exílio". 

Seu romance mais famoso é de 1995: "Quase Memória", que vendeu mais de 400 mil exemplares. Esse livro marca sua volta à atividade de escritor/romancista, após 20 anos sem lançar nenhum título. Seu romance "A casa do poeta trágico", foi eleito o "livro do ano", obtendo o Prêmio Jabuti, na categoria ficção.

Entre os prêmios recebidos, estão um Machado de Assis, três Jabutis, um Ordre des Arts et des Lettres, além do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira e Prêmio Livro do Ano. Uma de suas mais polêmicas obras foi "O Ato e o Fato", que reunia as crônicas que se opunham ao regime dos militares, sendo um sucesso de vendas. No final da década de 1980, chegou a assumir o departamento de teledramaturgia da extinta TV Manchete e a esboçar sinopses de novelas como "Kananga do Japão" e "Dona Beja". Nesse período, atuava como assessor pessoal de Adolpho Bloch. 


Nas últimas décadas, crônicas sobre política e cotidiano

Nas últimas décadas, o nome de Cony estava em posição destaque na imprensa brasileira, quase diariamente na página de opinião do maior jornal do País. Nas crônicas que produzia para a “Folha de S.Paulo”, desde 1993, temas cotidianos, políticos e pequenos esboços literários eram produzidos para seus leitores. Sua última coluna no jornal foi publicada no dia 31 de dezembro do ano passado. 

Em sua coluna na “Folha de S. Paulo”, o jornalista Clóvis Rossi disse que sua idolatria pelo autor se acentuou quando “ele passou a dar aulas de escrita em sua coluna na página 2”. 

O jornalista Jânio de Freitas, também no dia 8 e no mesmo jornal, classificou que, no universo de Cony, “ficção e realidade eram uma coisa só”. No mesmo texto o autor declarou que “sua consciência do que fazia, do que sentia necessidade pessoal de fazer, era absoluta”. Vários outros escritores, jornalistas e políticos manifestaram pesar pela partida do cronista. 


Membro da AAL afirma que teve houve em sua obra

Membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras), o escritor Tharso Ferreira também é um dos admiradores de Cony. “A obra que me causou mais impacto e interesse, talvez até por conta de minha idade na época, foi o incrível livro, o melhor na minha opinião: 'O irmão que tu me deste', um drama familiar complexo dos finais da década de 70. Li-o dezenas de vezes. Este livro, sim, tem uma certa importância em meu estilo até hoje”, revela o admirador.

Ferreira conheceu os trabalhos de Cony lendo a “Folha de S.Paulo”, mesmo morando no Rio, terra do seu ídolo. “Agora, digo eu, o traço que marca a obra de Carlos são suas palavras de gume, seu estilo direto, rico em detalhes, sua lógica na narração e saber saltar de um assunto ao outro sem perder o fio narrativo arguto. Suas crônicas, geniais e diárias, potencializavam bem isso”, enaltece Ferreira.

Sobre o legado da obra do escritor, Ferreira diz que “Cony foi muito profissional, muito profícuo, muito ligado às angústias de seu tempo. Aprendi com ele que o escritor deve escrever, escrever, escrever. Ter adaptação ativa, antecipar rumos e escrever até que se morra”. 

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