Contra o tabu

Talvez, esse seja o gatilho que todas esperavam para se verem apoiadas

A luta das atrizes de Hollywood contra o assédio sofrido pelas mulheres está apenas começando a mostrar a verdadeira face do que está por trás de uma vida glamourosa. Pelos depoimentos dados até agora, assédio é coisa corriqueira no meio, muitas se renderam aos “favores” sexuais para subir na carreira e, hoje, com discernimento, tiveram coragem de se arrepender e denunciar publicamente os agressores.

O movimento “Times Up” (o tempo acabou, em tradução livre) busca encorajar todas as mulheres, vítimas de qualquer tipo de violência sexual, a denunciarem seus agressores e, principalmente, libertarem-se do trauma sofrido. Nos Estados Unidos, quando as celebridades começaram a contar suas histórias, nomes famosos foram banidos da indústria do entretenimento. Mas tais crimes não ocorrem somente nesse âmbito. Talvez, esse seja o gatilho que todas esperavam para se verem apoiadas a denunciar. Por lá, já foi organizada uma associação a fim de prover suporte às vítimas de abuso e assédio que não têm condições financeiras de lutar por seus direitos. No Brasil, muitas das vítimas de abuso são crianças. 

Os números mostram que grande parte desses casos é praticada por pessoas de confiança. Entre 2012 e 2016, foram 175 mil casos de abuso e exploração sexual de crianças denunciados pelo disque-100, o canal de denúncias sobre direitos humanos. Isso coloca o País nas primeiras posições do ranking com o assustador número de quatro crianças abusadas por hora. Números tristes mostram também que a maioria dos abusados é do sexo feminino (67,7%) e a maioria dos abusadores é formada por homens (62,5%) na faixa do 18 aos 40 anos (42%). São dados colhidos por meio do disque-denúncia. 

A pergunta que fica é: como prevenir tudo isso? Aproveitando o momento em que a mídia está expondo o assunto, mostrando celebridades com influência no meio jovem que declararam terem sido vítimas deste tipo de violência e ensinando as crianças como agir para evitar que os abusos e assédios aconteçam. Enquanto a educação sexual for tratada como tabu, os números serão cada vez maiores. E eles já são assustadores, mesmo sabendo que muitas famílias encobrem os casos por vergonha da prática por algum membro adulto contra crianças.

As crianças precisam conhecer o próprio corpo, saber que somente alguns profissionais de saúde, em determinados casos, podem examiná-las e sempre na presença de um familiar adulto. São questões básicas que necessitam fazer parte do repertório dessas crianças a fim de evitar o triste fim a que a desinformação pode levá-las.

Como no Brasil, a sociedade demora muito a se organizar, não consegue fundos para financiar causas de quem não tem recursos e, ainda, a Justiça dificulta o acesso pela burocracia, muitas vezes, o que se vê é justiça sendo feita com as próprias mãos. Enquanto praticantes de crimes sexuais são protegidos nas cadeias, a sociedade pede justiça.

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