Patrícia Bértoli, de Araçatuba, é doutora em linguística aplicada, professora e pesquisadora de inglês, literatura inglesa e formaçao de professores, atualmente na UERJ

'Como eu aprendo', por Patrícia Bértoli

Por que depositamos no material didático e no professor responsabilidade sobre a nossa aprendizagem se quem aprende somos nós? A busca por um modelo de ensino que funcione efetivamente leva pesquisadores a desvendarem teorias, métodos e modelos pedagógicos que são constantemente atualizados e renovados.

As editoras avançam nas produções de novos materiais que se adequam a novas necessidades e que incluem inovações tecnológicas. Secretarias de Educação investem, escolas renovam, professores adotam, pais compram e todos ficam felizes porque estão se modernizando, se atualizando e, consequentemente, aprendendo. Será?

O livro e seus apêndices tecnológicos apresentam-nos um conteúdo previamente decidido. O professor transforma aquilo que vem no livro associado a seu conhecimento sobre o assunto e seu conhecimento de mundo e de vida, e nos "ensina". No caso específico de línguas estrangeiras, nos dias de hoje, os métodos comunicativos e interativos predominam. É a língua sendo falada desde a primeira aula.

Todavia, o ponto chave do ensinar não é o ensinar, mas o aprender. Até porque, quem vai avaliar o "sucesso do ensino, a abrangência do material e a qualidade do professor" vai ser mesmo o aluno. Em poucas palavras, o que todos pensamos é: "se eu aprendi é porque a escola (e o conjunto de tudo que ela oferece, inclusive o professor) é boa". Esquecemos de atentar para o verbo desta frase: "aprender". Quem aprende não é o livro, não é o CD e também não é o professor. Quem aprende é você. Quem aprende sou eu. Mas como é que eu aprendo?

Quando o foco passa do ensino para a aprendizagem percebemos que as pessoas aprendem de maneiras diferentes. Na realidade, temos diferentes habilidades cognitivas que são ativadas particularmente, mais de uma forma do que de outra. Infelizmente, em virtude dessa diferença, há pessoas que se convencem de que nunca vão conseguir aprender uma segunda língua e outras de que nunca vão conseguir fazer contas de cabeça. 

Pesquisadores de Harvard, liderados por Howard Gardner, nos anos de 1980, apontaram a existência de inteligências múltiplas que guiam diferentemente nossos modos de aprender. São elas: lógico-matemática, linguística, musical, espacial, cinestésico-corporal, intrapessoal, interpessoal e naturalista. Todos temos um pouquinho de cada uma delas, mas uma predomina. Ter uma inteligência predominantemente linguística significa ter maior facilidade para línguas, o quê não significa impossibilidade de aprender música ou matemática, mas ter que exigir mais de si mesmo para isso.

Materiais didáticos e professores passaram a considerar as múltiplas inteligências e oferecer tipos mais variados de atividades, já há algum tempo. A dificuldade é que estamos, na maioria das vezes, dentro de salas de aula com muitas outras pessoas e, dessa forma, alguns modos de aprender acabam sendo menos priorizados. Se, por exemplo, uma pessoa é cinestésico-corporal, ela aprende melhor se movimentando. Não vai ser fácil ficar sentada, ouvindo e vendo. Ela precisa tocar e fazer. Já um aprendiz marcadamente intrapessoal prefere trabalhar sozinho, precisa ter objetivos e estratégias bem definidos; enquanto um interpessoal se dá melhor em grupos. 

Quando decidimos aprender outra língua, ou qualquer outra coisa, a pergunta que devemos fazer é a nós mesmos: como é que eu aprendo? Quais as minhas preferências? Repetir em voz alta, repetir em minha mente, escrever, tocar nos objetos, conversar com colegas e com o professor, cantar, fazer associações lógicas com a minha primeira língua, fazer associações com a maneira que aprendi minha língua materna? Um pouquinho de tudo isso, mas qual é mais forte? 

Não há fórmula mágica para se aprender outro idioma. Se houvesse, alguém estaria muito rico e todos falaríamos umas sete línguas diferentes pelo menos. Mas, ao pensarmos com cuidado sobre como aprendemos com maior facilidade, tornamo-nos mais conhecedores e empoderados de nós mesmos e com muito mais controle e chances de aprendermos tudo o que quisermos.

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