Ester Mian da Cruz, de Araçatuba, é professora de língua portuguesa e mestre em literatura brasileira

Cinema: atividade lúdica apenas?, por Ester Mian da Cruz

O uso do cinema na sala de aula tem sido excelente recurso para professores de diversas disciplinas. Há bastante tempo, educadores escolheram a imagem para complementar os conteúdos curriculares. Vários filmes questionam a relação da sociedade com a escola e o conhecimento. Às vezes, tratam das polêmicas relações entre professores e alunos e das dificuldades de aprendizagem desses.
 
Marcos Napolitano, professor de história da USP, publicou pela Editora Contexto o livro Como usar o cinema na sala de aula. Nele, descreve os procedimentos básicos para analisar um filme, indica atividades práticas, sugere títulos e abordagens diversas a fim de transformar a exibição de filmes em atividade não só lúdica, mas também sedutora e enriquecedora aos alunos.
 
O autor é bastante cuidadoso ao enfatizar que o cinema não deve ser usado como mera ilustração de conteúdos, mas que, pode sim, tornar-se um poderoso instrumento didático.
 
Compartilho dessa opinião, por isso escolhi sugerir dois filmes, entre os vários existentes, que, exibem questões ligadas ao ensino da escrita e da leitura. São eles: Escritores da liberdade e Dentro da Casa.
 
Escritores da liberdade dedica-se a discutir a difícil relação entre grupos étnicos marginais na sociedade norte-americana. São os latinos, asiáticos, negros em conflitos ideológicos, crises de convivência com os nativos, deficiências na educação e socialização, tudo explorado de maneira ágil e agradável aos adolescentes. Uma professora branca, filha de um intelectual engajado, resolve lecionar inglês numa escola de subúrbio. Depois de inúmeros enfrentamentos, consegue fazê-los entender a necessidade do autoconhecimento e da compreensão de suas condições sociais e históricas e o faz, primeiramente, por meio da leitura de letras de música de negros da periferia. 
 
Partindo, ainda, do universo cultural e existencial dos alunos, sugere a escrita de um diário, fato que os aproxima. Por fim, os alunos leem O diário de Anne Frank, ficam tocados e movimentam-se em torno de várias ações transformadoras do local.
Evidencia-se com a obra que, por meio de um ensino progressivo e reflexivo, é possível produzir a compreensão da cultura, da arte e de suas implicações para a nossa vida.
 
Dentro da Casa é um primoroso filme do premiado diretor francês, François Ozon, e tem como tema central a relação intrigante e complexa entre um aluno com potencial de escritor e um professor de francês frustrado com as redações dos alunos.
 
Diálogos sobre as técnicas da escrita literária, tais como a da construção do enredo, de personagens, conceitos de arte, do belo, dos gêneros literários, do que é originalidade na arte contemporânea pautam a trama. São duas estórias bem arquitetadas, que se confundem e se influenciam mutuamente, num enredo difícil, mas envolvente: a estória da família pequeno-burguesa descrita pelo aluno e a estória entre o mestre - fascinado pela capacidade literária do aluno e o adolescente mais ou menos inconsciente de seu papel. 
 
Há muito que observar, em especial, no filme francês. O espaço é exíguo. Aos professores de português e aos apaixonados por arte ficam as sugestões.
LINK CURTO: http://folha.fr/1.366769