Cidinha Baracat é professora e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Cidinha Baracat: Hora de agradecer

O trabalho vai preencher uma grande parte da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que se acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que se faz”. (Steve Jobs )
 
Quando eu era pequena, meu saudoso pai me colocava no colo e dizia: “Esta vai ser professora”! Pretensão descabida numa família de boias-frias analfabetos. Mas o mantra virou profecia e, dez anos depois, o milagre se concretizava. 
 
Fevereiro, 1958. Recém-formada, repleta de ideais e de “excelentes” teorias sobre educação e aprendizagem, lá fui eu para a primeira experiência profissional: “Escola Mista do Bairro da Jangadinha”, modesta escolinha de roça, onde nem eletricidade havia.
 
Ao adentrar a sala de aula, na qual trabalharia com três diferentes turmas (primeira, segunda e terceira séries) ao mesmo tempo, levei um susto! O banho frio de realidade fez estremecer toda a calorosa certeza de que a tão sonhada carreira seria muito fácil e sempre prazerosa.
 
Recebi, então, daqueles olhinhos curiosos e quase tão assustados quanto eu, a silenciosa e expressiva mensagem: “então, professora, vai encarar”? Essa primeira lição, guardei-a comigo para sempre: teorizar sobre o ensino é uma coisa, sala de aula é outra, muuuiiito diferente. E é nela que o processo se realiza (com ou sem êxito), em toda a sua complexidade. Obrigada, meninos e meninas da Fazenda Jangadinha! Eu os perdi de vista, mas não esqueci a lição. Vocês foram minha prova de fogo, meu rito de passagem para a atividade que ainda hoje exerço, agora com mais realismo e firmeza.
 
Depois fui para Mirandópo-lis, alfabetizar uma primeira série. Alfabetização é a base sobre a qual se assenta todo o edifício escolar, e uma das mais fascinantes experiências do magistério. Receber a pedra bruta, aparar as arestas, retirar os escolhos, lapidar, burilar, polir. É lindo ver emergir o resultado de tão árduo trabalho. De cada aluno alfabetizado recebia esta grande e bela lição: Magistério é arte. O trabalho feito com amor e entusiasmo enriquece e ilumina, tanto a criatura quanto o criador. Como toda arte, demanda empenho, talento, dedicação. E nem sempre, ou melhor, quase nunca se faz uma obra-prima!
 
Vieram depois Luiz Gama, Manoel Bento da Cruz, Maria do Carmo Lélis, Colégio Objetivo, Colégio Anglo, Faculdade de Administração de Empresas, Faculdade de Letras, Centro de Comunicação. Em todos eles, novas lições. E foram tantas! A cada turma, de cada aluno, um ensinamento. Aprendi a ser menos arrogante, a ter compaixão, a perdoar e a pedir perdão; a respeitar diferenças e a não exigir além dos limites; a ser mais flexível e compreensiva; e, principalmente (isso muito me custou!), a aceitar que o mundo sofreu uma transformação radical e eu preciso, sem violentar meus princípios, tentar adaptar-me a essa nova realidade, tão diferente daquela em que comecei. 
 
Aprendi que bater de frente com o aluno é a melhor forma de perder seu respeito; que o aluno precisa admirar o professor para aceitá-lo e desejar saber o que o mestre sabe; que o discípulo só aprende quando deseja e está pronto, e não quando nós o pressionamos.
 
Fevereiro de 2018! Hoje são 60 anos ininterruptos de sala de aula. E a certeza de que valeu a pena. Apesar de todos os percalços, da triste realidade do magistério brasileiro, da negligência dos que deveriam zelar pela valorização do trabalho do professor. Apesar de tudo e de todos, acredito na educação como agente transformador da sociedade. 
 
Cada passo de nossos alunos na ascensão ao conhecimento, cada nova etapa vencida faz de nós, professores, partícipes na obra da Criação e do aperfeiçoamento do ser humano. Como o obreiro na construção de um edifício, somos os cimentadores dos alicerces sobre os quais se assentam os valores de que depende a evolução pessoal e profissional dos homens do futuro.
 
Um professor cônscio de sua responsabilidade social não se utiliza de subterfúgios para negligenciar seu trabalho, pondo em risco sua própria reputação e a de sua classe. Ao contrário, luta por seus direitos e pelos princípios nos quais acredita. Se lhe faltar amor e entusiasmo, paciência e resiliência, tornar-se-á um mau exemplo para aqueles que necessitam de ações assertivas, sábias e capazes de motivar atitudes de questionamento, reflexão e busca de soluções para os graves problemas que nos afligem.
 
Espero poder chegar ao final da minha jornada parafraseando o apóstolo Paulo em sua Carta 4 a Timóteo, no capítulo 2, versículo 7: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé”.
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