Cidinha Baracat é professora e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

Cidinha Baracat: Dose dupla

É madrugada. Estou só e insone. Uma impertinente e fria garoa torna mais melancólico o céu nublado. Da sacada observo a rua, escura e quase deserta. Poucos transeuntes a cruzam, cabisbaixos e silenciosos. Seres como eu, solitários e tristes, que buscam na noite um norte, algo que faça sentido no vazio de sua solidão.

Um homem atravessa a rua e para em frente ao botequim mal-iluminado, onde vultos e sombras de outros notívagos lembram os "perdidos numa noite suja", de Plínio Marcos. Não entra, nem continua seu caminho. Parece indeciso, confuso, sem rumo. "Perplexo, como quem pensou, achou e esqueceu", oscilante no tênue fio que separa seus sonhos de felicidade da sórdida realidade do boteco, onde tantos naufragam no limbo etílico do efêmero esquecimento.
 
Tento adivinhar um pouco do que lhe vai na alma e no coração. Quem será? De onde veio e para onde ia? O que procura e o que espera encontrar? Busco atribuir-lhe alguma ideia ou ideal, adivinhar o que sente, que dor o dilacera, que mágoa o esmaga, que perda lhe pesa como chumbo na face que não disfarça o fardo que a endurece.

Por alguns momentos, esqueço completamente minhas próprias feridas. Perpassa-me o cérebro a estapafúrdia ideia de descer à rua, assim como estou, de pijama e chinelos, e ir ter com ele, fazer-lhe companhia, pedir-lhe que me faça sua confidente e amiga, que beba comigo e me conte suas angústias, divida comigo o peso das sombras que desenham sua desesperança. Porque só alguém muito infeliz e desesperançado para na frente de um bar assim, numa segunda-feira de madrugada, sozinho e tão perturbado.

E me vejo também contando-lhe meus segredos mais torpes e inconfessáveis, minhas mais secretas e doloridas lembranças, misturando nossas lágrimas num quente abraço, numa esdrúxula simbiose de quem vê no outro sua própria imagem, em fraterna e humilde identificação do que nos torna "humanos, demasiadamente humanos". E num ímpeto olhar nos seus olhos como irmã, tomar-lhe as mãos e dizer-lhe, num sincero, solidário e cúmplice desabafo:

- Então, irmãozinho, quer brindar comigo a todas as besteiras que tenhamos feito e das quais estejamos a pagar o preço? Expurgar do peito essa amargura inútil? Perdoar-nos e perdoar a todos os que nos fizeram sentir culpa e remorso? Eu o compreendo e respeito seu sofrimento, como divido com você o meu. Mas quaisquer que tenham sido suas causas, não vale a pena prolongá-lo indefinidamente, numa dolorosa e interminável expiação.

Ele me olharia com ternura e gratidão. E sairíamos ambos, de mãos dadas, abençoando e recebendo a chuva no corpo e na alma. Rindo de nós mesmos, do mundo e dos outros. E para todos os outros, que provavelmente ririam também. De nós e para nós. Cantaríamos e dançaríamos nesse fim de madrugada, palhaços que somos da comédia burlesca (que às vezes se torna trágica), a que chamamos VIDA e na qual queremos, apesar de todos os pesares, continuar atuando. Como vítimas ou heróis, mocinhos ou vilões, amados ou odiados. Ignorados, NUNCA!