Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Valente

Obsessão corrente é querer manipular divindades! Reflexo dos fortes instintos de dominação e de egoísmo presentes na alma humana. Pedagógico ao extremo é saber que o próprio Jesus enfrentou o drama em sua cidade natal. Com singular percepção, peculiar à mente analítica de médico, Lucas registra uma das visitas de Jesus ao seu berço natal. Enquadra os acontecimentos no dia de sábado, o dia santo para os judeus. 

Como de costume, Jesus vai à sinagoga. Faz a leitura e a explica provocando grande admiração entre seus conterrâneos. Apresentam-lhe, então, uma proposta. Porque não fazer a cidade natal, Nazaré, o quartel geral de suas operações. Realizando prodígios ali, certamente traria a Nazaré multidões, alavancando a prosperidade da cidade. 

Deduz-se pela reação dos cidadãos de Nazaré, que pressentiam poder aproveitar-se da fama de Jesus para tirar vantagens particulares. Imaginavam poder monopolizar a ação de Jesus! Muitos, ao longo do tempo e ainda em tempos modernos, sonham em poder monopolizar a ação divina. Certas pregações passam a clara indicação que Deus age somente em determinadas comunidades, marcando hora e fixando pedágios.

A reação de Jesus é de uma luminosidade libertadora, fundada em estratégia pedagógica fantástica. Lembrando episódios bíblicos, de amplo conhecimento de seus conterrâneos, Jesus confirma que os benefícios divinos não são restritos a espaços físicos nem atrelados a pressupostos étnicos ou religiosos. São intervenções gratuitas. Exigem apenas confiança no mensageiro divino. Do fiel exige-se apenas generosa, humilde e grata acolhida. As bênçãos são naturais consequências da inesgotável bondade divina.

A resposta de Jesus destaca ainda a atitude do genuíno profeta. O autêntico mensageiro de Deus não se deixa influenciar por imediatos privilégios. Consciente de sua sobrenatural unção, coloca-se integralmente a serviço de Deus. Suas palavras e suas ações são motivados unicamente pelo zelo de testemunhar a incondicional compaixão divina. Ele não se atém ao que o povo quer ouvir ou receber, mas, sim, ao que o povo precisa ouvir e assimilar. É a sutil diferença entre o profeta charlatão e o autêntico mensageiro de Deus. 

Para agradar e não perder a popularidade, o charlatão distorce a mensagem, ajustando-a ao gosto do cliente. O autêntico profeta não teme ficar sozinho. Nem receia perder a popularidade. Aplica-se apenas em não trair sua missão.
 
A população de Nazaré rapidamente mudou de humores. Da euforia passou a perseguição. Expulsaram seu conterrâneo porque Jesus não aceitou fazer concessões, recusou o jogo de interesses. Cobiçando o monopólio, os nazarenos ficaram sem Jesus e sem suas bênçãos. Valente, Ele ensina que o verdadeiro profeta se reconhece pela fidelidade e pela convicta coerência!

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