Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Subversivos

Vive-se uma evidente crise moral. A sociedade, em geral, experimenta angustiante perplexidade por causa dos valores que regem o comportamento do cidadão. Riqueza e fama possuem limitado prazo de validade. Com razão, questionam-se os valores que o mundo adota como caminho seguro para a realização pessoal. Se o material e o imediato não dão conta de garantir harmonioso e consistente progresso, é preciso buscar preferências que transcendem satisfações sensíveis e egocêntricas. 

Urge educar-se a olhar além do pragmático e do sensorial. No contexto de apressado hedonismo, se é induzido a ignorar o coletivo, comprando a ilusão de que é possível ser feliz isoladamente. Acontece que sem progresso coletivo não há bem-estar individual duradouro. Ninguém vive isolado. Compreende-se que para sonhar com progresso consistente e harmoniosa tranquilidade requer-se garantir a todos os cidadãos algumas condições básicas para uma subsistência digna. A humanidade como família é a destinatária primeira das riquezas do mundo. 

Percebe-se porque, apesar de tão fantástico avanço tecnológico, o mundo permanece em estado contínuo de perplexidade e confusão. É cruel a inversão de valores. Enquanto projeta luxo e exalta extravagantes supérfluos como troféus de realização individual, o mundo não consegue resolver o flagelo da fome que mata milhões de seres humanos. Investe no espetaculoso, enquanto ignora o básico. O descompasso é vergonhoso e infame.

Urge subverter a atual ordem de preferências. Os valores do mundo são comprovadamente enganadores. Falidos. E devem ser revistos. Sente-se a necessidade de subverter, pois, o atual esquema de valores. De rebelar-se contra as variadas pressões, que minam amizades, robotizam pessoas e banalizam princípios éticos. 

A vigente ordem caótica e massacrante só será subvertida pela adoção consciente e disciplinada de preferências alternativas, tendo como referência básica e intransigente a dignidade de cada ser humano e o bem coletivo. Ora, o processo de conversão repousa, preferencialmente, na criteriosa percepção e decisão íntima de cada cidadão. Essa transformação cultural não depende de messianismos e cruzadas, nem tampouco de comoventes e barulhentas passeatas. Não se mudam costumes por decreto. Muda-se de rumo a partir de um discernimento consciente e exemplos convincentes.

Nenhuma conversão verdadeira acontece por impulso. Ou por imposição. Mudança consistente obedece a um processo contínuo de disciplinada coerência e amadurecida percepção. Uma revolução dessa envergadura transcende aprovações e aplausos, dispensa holofotes e aclamações. Vacina-se, ainda, contra críticas e ironias. Foca-se tão somente nas regeneradoras potencialidades e perenes valores da justiça e da solidariedade. A realização e o progresso da humanidade contam com a ação serena e persistente de subversivos agentes.

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