Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Selfie

Parece que foi combinado. Justamente na semana escolhida pelo papa Francisco para motivar uma séria reflexão sobre a trágica e humilhante condição de pobreza vivida por milhões de pessoas ao redor do mundo, uma criança desmaiou de fome numa escola a 11 km de Brasília. A situação miserável de tanta gente permanece fora do alcance do radar de nossos eleitos representantes. 

A mesma censura que emerge a partir da dolorosa indiferença de nossos executivos e parlamentares, aplica-se também à maioria dos cidadãos. Com um agravante nada desprezível: a esmagadora maioria identifica-se como cristã, marcada indelevelmente com o selo do amor fraterno. O clamor desses pequenos permanece, curiosamente, fora do alcance dos radares dos cidadãos.

Ao convocar os cristãos a alargar seu campo de visão, e nele incluir os milhões de pobres, o papa Francisco quer despertar o cidadão do sossegado sono e reavivar nele a chama da solidariedade que deve ser distintivo de toda gente de boa vontade, em especial do batizado. Pobreza tem cura, se o cristão se reveste da armadura da fé e do amor, como também do capacete da esperança da salvação, como recomenda o apóstolo Paulo. Ao mudar corajosamente hábitos, opera-se significativo salto de qualidade, tanto na esfera pessoal como coletiva. Resignar-se diante de tão humilhantes desigualdades representa, por óbvio, compactuar com a miséria.

É sempre possível fazer mais quando se ama. Ajudas pontuais e caridades sazonais não resolvem o problema, apenas o mitigam provisoriamente. Ao revestir-se da armadura da fé e do amor, insere-se no processo de afastar-se da mentalidade egocêntrica que impera na atual cultura e que rege os valores e as motivações dos cidadãos. Nações e indivíduos andam marcados por uma exacerbada cultura selfie! O “eu” e o “meu” são referências absolutas. As motivações, tanto no campo individual como coletivo, giram em torno de vantagens. Abraça-se tudo e somente o que promete lucro. Repudia-se o que gera incômodos. 

Ao permitir prevalecer essa mentalidade demasiadamente narcisista, tanto as sociedades como os indivíduos vão se isolando, dúbia estratégia de proteger ou garantir o próprio conforto. Entende-se porque está ficando cada vez mais raro encontrar voluntários dispostos a abraçar iniciativas humanitárias. Ou mesmo aceitar tarefas pastorais. 

Ao selecionar a frequência do radar, reduz-se consideravelmente o volume vindo de apelos por atenção, acomoda-se melhor no próprio conforto. Esta cultura subjetiva contaminou igualmente os espaços religiosos: são mais populares as celebrações e cultos que oferecem bênçãos e curas que as liturgias que insistem no compromisso e instigam a sair do comodismo.

Enganadora permanece esta cultura do selfie. Impõe-se liberar-se dela com urgência e decisão. Urge ultrapassar as fronteiras do egoísmo e do comodismo, caso se queira, de verdade, que nenhuma outra criança desmaie de fome em sala de aula.

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