Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Manchete

O jogo da paz acabou em pancadaria! A desmedida arruaça no estádio Barradão (BA) reflete a cultura da violência que contamina a atual sociedade. Preocupa, sobremaneira, pela desenvoltura e crueldade crescente dos agentes do mal. Quem anda determinando o compasso da sociedade não são mais os governos constituídos, mas as organizações criminosas. Subornados e cooptados, os governos perderam a autoridade e a moral para imporem ordem e disciplina. Perplexa e amedrontada, a população debate se a situação tem conserto.

Existem ferramentas capazes de reverter a medonha situação. É preciso, primeiro, recuperar a legítima hierarquia. É preciso restabelecer o respeito pela lei, é preciso retomar o comando, condições básicas para que a população supere o medo e volte a circular sem sobressaltos. 

A repressão e a punibilidade representam apenas uma peça em um conjunto de ações articuladas em favor da paz e da ordem. O avanço da criminalidade se explica, paradoxalmente, pelo respeito à hierarquia, pela disciplina e pela ação articulada entre as diversas células que integram uma organização criminosa. O seu combate, portanto, será eficaz na medida em que a sociedade também se articule. É totalmente ambíguo deixar aos governos a exclusiva responsabilidade de garantir tranquilidade e segurança.

A Campanha da Fraternidade deste ano, oportunamente, convoca as diversas entidades sociais a se unirem no combate à violência, com especial destaque à família e às próprias organizações religiosas. A meta e a inspiração é o cultivo da cultura da paz! Cultivar envolve labor, dedicação e persistência. A mais elementar análise convence que a violência que se percebe solta e atrevida nas ruas e praças encontra-se igualmente presente nas células básicas da estrutura social, nas famílias, nas escolas, nos ambientes de trabalho. 

É desses ambientes conturbados que saem os bandidos, tantos os de pés de chinelo como os de colarinho branco. É nessas áreas miúdas, portanto, que se deve preferencialmente investir na implantação da cultura da paz. Se nesses ambientes básicos se aprende a praticar a honestidade, a tolerância, a reconciliação, o respeito, se habitue, em suma, a enxergar o outro como irmão, pode-se confiar, a infame cadeia da violência começará a ruir. Omitir-se, por outro lado, torna a sociedade conivente!

Objeta-se, muitas vezes, que embora louváveis, essas medidas são inócuas diante da dimensão monstruosa da atual violência. Rechaça-se esse pessimismo resignado com a convicta fé na força da fraternidade. Se uma única luz é suficiente para dissipar trevas, que impacto luminoso não conseguirão várias luzes reunidas? É preciso acreditar que o bem também contagia. Tratamento respeitoso, bem temperado, também pode ser manchete. Abaixo o pessimismo! Articuladas e determinadas, as diversas entidades do bem reúnem formidáveis energias para alimentar e manter viva a alvissareira cultura da paz! 

LINK CURTO: http://folha.fr/1.391598

Curta nossa fanpage e receba notícias pelo Facebook