Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Lutero

"É preciso, novamente, fazer perguntas!" 

Com esta afirmativa, o curador das comemorações da Reforma Protestante, sr. Hasselhorn, resumiu o clima que se pretende criar com as diversas celebrações programadas para marcar o evento. Em 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano, Martino Lutero, pregou na porta da igreja da cidade de Wittenberg, 95 definições, contestando pontos da doutrina católica. Esses questionamentos doutrinários abriram o caminho para o segundo grande cisma a atingir a Igreja Católica. 

Olhando com serenidade os acontecimentos da época, é se induzido a concluir que o impacto da Reforma Protestante não se deveu apenas a questões dogmáticas e morais. O Vaticano promovia na época uma prática piedosa, teológica e moralmente ambígua, a comercialização das indulgências para financiar a construção da basílica de S. Pedro. 

Lutero fez desse absurdo o motivo principal da sua desejada reforma. Intuindo a possibilidade de independência política e econômica, vários Estados alemães, saturados em pagar impostos à Roma, apoiaram e insuflaram a separação. O que originariamente foi cogitado para ser uma reforma de hábitos na Igreja, evoluiu-se para uma radical ruptura. 

As brumas da intolerância, felizmente, estão se diluindo. Vive-se, hoje, o saudável clima de ecumenismo. Principalmente entre as centenárias confissões cristãs. Prevalece o entendimento que são mais numerosos e importantes os valores que unem as confissões de que os argumentos que os mantêm separados. Sugere o espírito evangélico a avançar nos pontos de convergência. A passagem dos 500 anos da reforma protestante, induz o pensador cristão a levantar várias questões, particularmente no estágio atual da chamada erosão da cultura cristã e da explosão da mentalidade materialista e consumista. 

A mentalidade utilitária que predomina questiona se ainda há espaço para a religião na sociedade atual. Uma serena e imparcial análise da realidade denuncia que o progresso material, por mais encantador, não preenche os anseios mais profundos da alma humana. A alma humana necessita de Deus, mas vai conseguir se convencer desta verdade existencial somente quando encontra comunidades de pessoas que vivem uma real e comprometida fraternidade. A comunhão permanece o testemunho mais eloquente. Mais convincente! 

Se o movimento reformista tivesse ficado restrito a questões morais e de comportamento talvez o cisma nem aconteceria! No processo, foi enxertado o debate teológico, o conflito de doutrinas. Ambas as correntes negligenciaram o essencial, o distintivo cristão do amor fraterno. Ideologias dividem. A caridade une, respeitando diferenças! Na reforma, sobraram teses, faltou caridade. Emerge a fundamental pergunta: o que mais comunga com o pensamento de Jesus: o embate sobre dogmas ou o convívio fraterno e respeitoso entre os que se dizem de Cristo?

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