Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Luminárias

O silêncio tempera as palavras! Por ser tão ruidoso, o mundo está ficando cada vez mais refém de comunicações apressadas. Emerge a enfadonha repetição. A nauseante superficialidade. Sem silêncio as palavras perdem efeito. E deixam de encantar. Essa incapacidade de garimpar o verdadeiro sentido e peso nas palavras e frases induz a pessoa a, frequentemente, ignorar a riqueza de conteúdo apresentado. 

Essa limitação verifica-se de forma dramática na leitura de textos bíblicos e litúrgicos. Nessa literatura, tanto bíblica como litúrgica, encontram-se frases e expressões que carregam verdadeiras minas de conteúdo teológico e místico, mas que, na maioria das vezes, ficam, simplesmente, ignoradas. 

Toma-se, como exemplo desse desperdício, a figura usada por Jesus para definir o tipo de relacionamento que deseja ver existir entre si e seus seguidores. Ele recorre à figura do pastor. O que diferencia o pastor bom do mercenário é, segundo Jesus, a capacidade de conhecer e chamar cada ovelha pelo nome. Ora, o termo ‘conhecer’ na Bíblia envolve muito mais de que juntar informações. 

Conhecer é amar, e amar significa criar vínculos. Ao afirmar, portanto, que o pastor bom conhece as ovelhas, Jesus indica que o sinal de um pastoreio correto é o envolvimento com a vida de cada integrante do rebanho. Esta verdade fica explícita quando o próprio Bom Pastor declara que é amado pelo Pai porque dá a vida pelas ovelhas. Ele não somente conhece a história de cada ovelha, mas se envolve com a vida de cada uma a ponto de estar pronto de dar a vida por elas.

De onde emerge outra dimensão nesse relacionamento. O anelo de mantê-lo e vivo e pulsante. Ora, relacionamentos se mantêm vivos a partir de experiências de convívio contínuo e envolvente. Presume-se estar Jesus expressando o desejo de motivar cada membro de seu rebanho a viver a experiência de um permanente encontro pessoal e íntimo com seu pastor. 

Quanta verdade preciosa se embute na palavra ‘conhecer’! E quantos a leem sem dar-se ao trabalho de ruminar seu profundo conteúdo! Emergem, desse descuido, dramáticas consequências espirituais! Pessoas muitas há que frequentam igrejas, cultos e missas, sem experimentar a mística experiência do encontro pessoal com o Bom Pastor! Fiéis há que não dispõem de tempo, para ficar a sós com o Bom Pastor, ouvindo-o chama-los pelo nome! Na verdade, dando-lhe a alegria de revelar-lhes a profundidade do seu amor, a realidade do vínculo que o liga a cada um! Preciosas palavras desperdiçadas!

Urge compenetrar-se que palavras têm peso e frases possuem sentido. Demandam, então, atenção, empenho e interesse para decifrar sentidos e garimpar alcances, alargando conhecimentos e aprofundando sentimentos, indispensáveis premissas para saborear singulares experiências. Palavras são luminosas!

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