Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Leigas e leigos

Periodicamente é preciso revisar conceitos. Tarefa exigente, uma vez que comprovado está que desaprender é mais difícil que aprender. Ciente da necessidade de um urgente ajuste de conceitos, a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) decidiu consagrar o ano 2018 ao laicato. 

A primeira impressão que surge ao usar o termo “leigo”, é negativa. Na concepção popular, ser leigo num assunto particular acusa despreparo. Essa maneira de pensar causou um acentuado distanciamento, uma real divisão na constituição eclesial. Aceitava-se como fato que as comunidades e igrejas sejam divididas entre hierarquia e leigos, assegurando aos primeiros o poder de decisão e relegando aos últimos a tarefas subalternas. Ensinada e defendida durante séculos, essa ambígua doutrina criou raízes profundas na maneira do leigo se posicionar na igreja. 

Graças a uma corajosa e salutar revisão de conceitos, oficialmente assumida pelo Concílio Vaticano 2, a realidade do leigo passa por uma substancial guinada. Resgata-se a ideia bíblica do povo de Deus, constituído pelo sacramento do Batismo. Nesta concepção teológica, o povo de Deus é formado por uma identidade comum e uma dignidade radical: todos os batizados são irmãos, filhos e filhas adotivos de um único Pai. O Batismo, comum a todos, é que constitui a família de Deus! 

Leigos não podem se considerar cristãos de segunda categoria. Nem acomodar-se a um papel meramente coadjuvante. Na atual visão teológica, os leigos recuperam a original dignidade de sujeitos eclesiais, com tarefas e responsabilidades específicas e intransferíveis. Assim como a hierarquia tem seu espaço próprio de atuação, os leigos possuem igualmente seu vasto campo de marcar presença na sociedade. 

Para resgatar esta fundamental vocação e insistir na evangélica inserção no mundo, a renovada teologia eclesial destaca o ensinamento do Mestre Jesus, conclamando indistintamente os discípulos a serem e agirem como luz e sal da terra. É todo o povo de Deus, hierarquia e leigos, que é convocado a agir no mundo como luz e sal! Ora, tanto a luz como o sal são elementos dinâmicos. 

Sua presença, embora discreta ou ate imperceptível na maioria das vezes, transforma ambientes. Delineia-se assim a ação do leigo nos vários campos do mundo, sua arena preferencial. Imbuído de uma firme adesão a Jesus Cristo, a ele configurado, empenha-se em fazer o Cristo reinar e marcar todos os ambientes. É o que se chama de evangelizar, anunciar, não tanto com argumentos, mas particularmente com um coerente exemplo de vida, confiante no vigor da graça divina. A evangelização é sempre trabalho lento, obedecendo a compassos próprios, independente de estatistas e resultados contábeis.

A doutrina é fascinante. Emerge o desafio maior: despertar as leigas e os leigos a ajustarem suas mentalidades e motivá-los a querer ocupar, com eficiência evangélica, seu legitimo espaço. O mundo necessita com urgência que o povo de Deus marque salutar presença.

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