Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Lares

Casa é feita de tijolos. Lar se constrói com ternura. Uma hora a construção termina. O lar está sempre em construção. A casa possui localização fixa e arcabouço sólido. O lar é essencialmente resiliente, dinâmico, em constante evolução. Nem está preso a endereço. Casas são impessoais. Lares são feitos de gente, com nomes e histórias. Troca-se de casa. Lares são insubstituíveis. Casas podem ruir. Lares raramente se desfazem. A diferença está na argamassa: na construção da casa, a argamassa é de composição rígida, sujeita à fria precisão. 

Na do lar, é flexível, somas e subtrações são componentes a lhe dar consistência e progressiva evolução. A “química” do lar nunca se esgota. Ao contrário, avança, criando vínculos inseparáveis e duradouros que, resilientes, resistem a abalos. Nem mesmo a distância física consegue afrouxar o laço que une, nem diminuir a alegria do companheirismo. Tampouco afeta a terna intimidade da cumplicidade. Casa é uma propriedade! Lar é vínculo indelével! Compra-se uma casa. Gera-se um lar! Possuir uma casa ou construir um lar, reflete, em síntese, o conceito que se faz do casamento. E de família.

A sociedade admite, hoje, uma pluralidade de teorias sobre o casamento. E consequentemente, sobre o conceito que se faz de família. Há muita discussão sobre as variadas uniões possíveis, sobre a condição social e/ou moral de convívios específicos, e sobre os previsíveis ou inesperados desdobramentos. Fala-se muito de direitos de uns e de outros, sem que, no entanto se perceba o mínimo de estabilidade nas diversas uniões, apesar dos ordenamentos legais. 

A legislação é importante, sem dúvida, mas ela em nada garante convívios harmoniosos. Discute-se muito sobre o que se pode ou o que não se pode, ao passo que se fala pouquíssimo sobre a educação do afeto! Emerge indigesta constatação: enquanto se ampliam códigos de direitos individuais e sociais, desfazem-se, com assustadora frequência, casamentos e uniões. 

Esfarelam-se famílias! Completo e trágico descompasso! Mora-se junto, mas não se constrói um lar! Assinam-se contratos a salvaguardar direitos e explicitar deveres, tudo muito bonito no papel, mas incapaz de criar vínculos! Esses afloram espontaneamente, consequência natural de um amor livre e consciente. Afeto responsável. 

A presente mentalidade julga ingênuo e ultrapassado quem opina que enquanto os casamentos duravam, a sociedade vivia mais equilibrada, com menos sobressaltos! É nostálgico e conservador o sujeito que insiste que a obsessão em avançar em garantias individuais, induz as famílias e a sociedade a negligenciar a urgência de uma sólida educação no amor! Amor e afeto são sentimentos que precisam estar sempre em processo de lapidação e de amadurecimento. 

Ao privilegiar o material e o vistoso, a cultura contemporânea relega a um plano secundário o invisível e o indispensável. Impõe ocupar-se com a casa, em prejuízo do lar!

LINK CURTO: http://folha.fr/1.387883