Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Horizontes

Confusas andam as pessoas. Multiplicam-se os indecisos! Desorientadas são pessoas incapazes de organizar suas prioridades. Na atual cultura consumista e hedonista que ruidosa e constantemente atiça a imaginação com novos apelos, apresentados como indispensáveis para quem deseja se apresentar bem ou para quem deseja encontrar caminhos de elevado conforto, fica compreensível entender porque o cidadão anda perdidinho. 

Urge insistir que a incapacidade de escolher não pode, a priori, ser considerada como limitação. Em determinadas idades e circunstâncias a indecisão é até saudável. A experiência tem ensinado que a verdadeira sabedoria começa a evoluir a partir da admissão das próprias limitações. Compreende-se a necessidade de ouvir e aprender. 

Escutar e assimilar. Saber ouvir é um exercício exigente, e igualmente indispensável, para quem deseja realmente progredir no conhecimento. Exige silêncio exterior. Sugerir silêncio, atualmente, causa arrepios. Ao contrário do que se imagina, o silêncio não é ausência de atividade. O verdadeiro silêncio não representa paradas, inatividade, ao contrário, é intenso trabalho da inteligência em busca de verdades mais profundas. 

O verdadeiro silêncio mira apurar o foco. Este tipo de exercício requer, claro, aprendizado e treinamento. Por conta desta necessária demora, possivelmente, muitos abdicam do silêncio e procuram caminhos mais fáceis. Justamente, é esta mania de, ou pressão para, soluções rápidas que contribui decisivamente para que a sociedade fique cada vez mais superficial e confusa. 

A reflexão passa a ser confundida com indecisão. A urgência de rápidas escolhas dispensa demoradas análises. Pressa e impaciência ditam o ritmo. Caminha-se, neste compasso, para uma cultura previsivelmente ambígua. 

A maioria das escolhas é motivada por interesses pessoais e imediatos. Consequência lógica, nesta conjuntura, o horizonte vai se estreitando. São vantagens individuais e de curtíssimo prazo que definem as preferências. Ora, felicidade individual não existe. Nem bem-estar consistente a curto prazo! Ninguém se realiza isolado do contexto comunitário. 

Enriquecimento rápido sempre é suspeito. Saltos consistentes de qualidade na vida somente acontecem quando se inserem na dimensão coletiva. Isso fica fácil perceber no microcosmos da família: ou a família toda está feliz ou nenhum membro está verdadeiramente realizado.

Nossa sociedade anda embaralhada porque os horizontes das pessoas estão ficando estreitos. Existe cultura, mas falta entendimento. Existe informação, mas falta conhecimento balizado. Falta sabedoria e sobra impaciência. Falta discernimento, porque a pressa dificulta pôr ordem em tantas supostas necessidades. 

Com calma e foco, fica-se mais fácil separar o realmente bom do supérfluo. Legítimos saltos de qualidade dependem de largos e definidos horizontes! 

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