Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Gritos

Época de tensão é o tempo de Natal. Neste período do ano, assiste-se a uma tenaz competição por espaço. De um lado, a incessante e bem articulada propaganda de valores profanos que insiste em reduzir este tempo a uma época meramente festiva e consumista. Totalmente secularizada. 

Na outra trincheira, a Igreja, com a rica mística do Advento, convocando os cristãos a se deixarem moldar pelo Salvador que vem! Embora preservasse o verniz cristão, a cultura natalina passa por uma radical mudança de eixo. Já não é o Menino Jesus que polariza a atenção, mas o Papai Noel, com seus atraentes apelos consumistas. A sociedade, de uma forma geral, relegou Deus a uma posição periférica, algo já grave em si. De maneira muito sutil, embora insistente e articulada, a atual cultura laica introduz valores — inocentes aparentemente —, mas com poder enorme de minar seculares tradições.

O assunto não é nostálgico. É a escala de valores que interessa. O exemplo mais evidente é a substituição do menino Jesus pela figura do papai Noel. O ícone símbolo do Natal é papai Noel. Quantas crianças sabem, hoje, o que é presépio? Compreende-se porque se dá mais importância à ceia natalina do que à ceia eucarística na noite de Natal. 

Os novos costumes impõem escolhas! Na tentativa de conciliar tensões, antecipa-se o horário da Missa do Galo. Além de descaracterizar por completo o profundo e catequético sentido simbólico da Missa do Galo, que enaltece a luz de Jesus Cristo que irrompe no meio da noite, vencendo as densas trevas, a antecipação do horário é uma tácita confissão de submissão. Ao sobrepor valores profanos aos religiosos, a alma humana vai ficando mais materialista, o coração mais frio, a sociedade mais violenta, as famílias mais pulverizadas, as pessoas mais isoladas e vulneráveis. Não se trata de nostalgia. A insistência é sobre os reais valores, capazes de tornar mais humana e harmoniosa a vida em nossas sociedades.

Valioso contraponto a esses apelos profanos é a liturgia cristã neste rico tempo de Advento. Ao ler com atenção os textos bíblicos, depara-se com a frequente ocorrência de clamores e gritos. A liturgia reporta clamores no deserto, gritos em altas colinas. Grita-se muito no Advento! Parece mesmo que a liturgia aceita competir com o mundo profano para ver quem consegue mais espaço no coração humano, mais atenção no ouvido das pessoas. 

A voz da liturgia quer penetrar mais fundo do que a poderosa voz do mundo! O objetivo, todavia, não é competir, na escala dos decibéis, com a bem articulada propaganda profana, mas despertar o sonolento cristão do seu torpor. Acordá-lo para o risco real de diluir a fé e de descartar a esperança. Com exímio conhecimento da alma humana, a liturgia não condena os aspectos festivos da época. Grita e insiste tão somente para que não se perca o foco. Grita e insiste para que o espiritual e o sagrado prevaleçam sobre o profano e o consumista!

LINK CURTO: http://folha.fr/1.378583