Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Faísca

Apreensivos andam os pais! O alarmante crescimento de jovens depressivos faz os pais perder sono. A aflição é alimentada por repetidas notícias de trágicos desfechos. A frequente queixa é a reclusão dos filhos em seus próprios mundos, distantes dos próximos, mas por demais conectados com estranhos. Incapazes ou impedidos de ter acesso ao conteúdo desses novos veículos de informação, os pais caem desolados, sem saber o que fazer ou como fazer. Prevenir é sempre mais eficaz e menos traumático que remediar! Estar presente envolve mais do que prover!

Criar ambiente de convívio familiar saudável é tarefa a ser assumida desde o primeiro dia do casamento. Habituar-se a enxergar o lado bom nas pessoas e nos acontecimentos representa um dos primeiros e mais saudáveis recursos positivos. Melhora a autoestima, fomenta o otimismo. Não basta, todavia, enxergar. É preciso também externar, elogiar. O estímulo integra o amadurecido e dá condições para que o sujeito não sinta medo em aparecer. Refere-se, evidente, a elogios sinceros e honestos. Não a bajulações oportunistas. Quem elogia com pureza de intenções não hesita corrigir, se fizer necessário. 

Emerge, neste contexto, nova postura, nem sempre bem entendida e corretamente administrada. Muitos pais confundem estímulo com ausência de disciplina. Ao querer dar segurança afetiva e psicológica aos filhos, abrem mão de corrigir. Está completamente ambígua a doutrina que diz que disciplina tolhe a liberdade e atrasa a evolução psíquica e emotiva do adolescente. Ambiente familiar saudavelmente consistente não é feito somente de “sim”, inclui também o “não”. Aprender a reconhecer limites e respeitar regras representa ingrediente indispensável na formação de uma personalidade amadurecida! 

Sentindo-se valorizada, a pessoa não tem medo de expor-se, de mostrar quem é, de falar de seus projetos. Esta é outra referência a induzir o jovem a retrair-se: o medo de não ser aceito ou compreendido. São frequentes os desencontros entre adolescentes e genitores por causa de projetos de vida. Queixam-se os jovens que os pais não entendem. 

Ao encontrar resistências, críticas ou gozações, é natural que o jovem se recolha, se refugie em ambientes onde se imagina entendido e estimulado. Falta neste particular tópico discernimento e paciência. O jovem, sabe-se, é volúvel, é contestador. Rebelde sem argumento, muitas vezes! Ao invés de confrontar, convém criar ambiente onde ele se sente confiante para manifestar-se. Ouvido ao expressar-se. Discordar é permitido, mas com respeito e valorização. Acima de tudo, aos pais cabe dar tempo ao tempo. Modismos caem em desuso. Gritos de guerra perdem força!

Antes de provedores, filhos precisam de pais educadores. Mais que uma casa, filhos querem um lar, onde a faísca da vida se acende para evoluir em permanente chama.

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