Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Em comunhão

As narrativas da ressurreição de Jesus, conforme registradas nos evangelhos, apresentam um dado interessante, que reúne reais condições para assegurar a tão almejada segurança. Ao ler com atenção essas narrativas percebe-se que a presença viva do Ressuscitado está intimamente atrelada ao convívio fraterno entre os discípulos. 

Na versão dos evangelhos sinóticos - Mateus, Marcos e Lucas - o anúncio da ressurreição do Senhor é acompanhado pela ordem de os discípulos se reunirem novamente na Galiléia. Ali, congregados, poderão encontrar-se com o Senhor! Na versão do evangelista João, o encontro de Jesus ressuscitado com os discípulos se dá no mesmo dia da ressurreição enquanto estão reunidos, com medo e a portas fechadas, na casa do cenáculo. Para reforçar esta verdade, João acrescenta o episódio de Tomé, que, na hora, se encontrava ausente. 

Os amigos lhe contam posteriormente a aparição de Jesus, mas ele recusa crer. Exige provas. E a prova lhe é oferecida, oito dias depois, novamente quando o grupo está reunido e desta vez Tomé está junto. A mensagem é por demais clara: viver em comunidade é uma das consequências primeiras da fé na ressurreição do Senhor. O Senhor se faz preferencialmente presente quando os seus estão reunidos. A mesma doutrina é repassada pelo evangelista Lucas, no eloquente episódio dos discípulos de Emmaús. 

A vitória de Jesus sobre a morte, sua real presença junto aos seus após a ressurreição fez, certamente, o grupo primitivo compreender que o testemunho maior que devem ao mundo é seu convívio comunitário. O ser humano é naturalmente sociável. Este convívio, contudo, fica muitas vezes conturbado por causa das inevitáveis limitações humanas. 

Valores conflitantes e defeitos de personalidade tumultuam a convivência, tornando-a frequentemente difícil, discriminatória e, até, repulsiva! São necessários radicais ajustes de personalidade e de conduta para que se possa viver bem em comunidade! É a proposta e a aposta de Jesus ao insistir no único mandamento do amor fraterno, possível somente para quem se dispõe a esquecer-se de si e renunciar a suas preferências.

Compreende-se o empenho dos evangelistas em exaltar o convívio fraterno da primitiva comunidade. Admira-se o grau de fraternidade daquele primeiro grupo de seguidores. Entende-se perfeitamente que a pregação mais eloquente que apresentavam, e que acabava atraindo números sempre maiores de admiradores e seguidores, era o exemplo de um autêntico convívio fraterno. Como se amam, costumava-se comentar. 

A vida em comum é a novidade maior trazida e confirmada pela ressurreição do Senhor Jesus! É o peculiar contributo dos cristãos para o mundo viver em paz e sem conflito! Viver em comunhão é viver sem sobressaltos. A Páscoa é sempre renova!