Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Deserto

Excitantes são os dias! As constantes referências na mídia reportando o vaivém peculiar a esta época do ano alimentam ainda mais a emoção. Amparadas, inclusive, na liturgia cristã que em suas preces oficiais aconselha a avaliar com sabedoria as coisas terrenas sem perder de vista as eternas. O nascimento do Redentor merece mesmo ser celebrado e festejado com o devido júbilo.

Uma leitura atenta dos textos litúrgicos, contudo, foca um intrigante detalhe. No ciclo preparatório que antecede a celebração do Natal, conhecido como Advento, surge com insistência a referência ao deserto. Ao entender que os evangelhos não devem ser lidos como uma narrativa jornalística nem como simples biografia da vida de Jesus, mas como catequese, fica evidente que esta referência ao deserto não é nem meramente topográfica nem acidental.

Curiosamente, os evangelistas registram as numerosas romarias que se dirigiam ao deserto para ouvir a pregação do Batista e por ele serem batizadas. A catequese é evidente e evangelicamente atual. É preciso periodicamente sair de si, desvencilhar-se da rotina. Urge, inclusive, ajustar os conceitos religiosos, para poder acolher o Messias. Essas atitudes eram necessárias no tempo do Batista e permanecem indispensáveis nos dias atuais.

Há muito conceito ambíguo a respeito de Jesus Cristo. Muita é a mediocridade na religião. Se se deseja, portanto, acolher corretamente o Redentor é preciso dirigir-se ao deserto. Permanecer no Templo, sem entender a necessidade de atualizar conceitos religiosos, permanecer na cidade, ocupado exclusivamente com propostas consumistas, impede dar saltos de qualidade na vida espiritual e prejudica seriamente o libertador encontro com o Mestre. Sem a coragem de afastar-se, provisoriamente, dos ruídos das ruas, o mistério do nascimento do Menino Jesus ficará reduzido a uma nota de final de página na crônica dos festejos natalinos. Lembra-se dele, sim, mas apenas por cortesia, só para dizer que não ficou esquecido.

À confusão de doutrinas na catequese dos judeus quanto ao perfil do Messias correspondem às hesitações do homem moderno acerca da real importância da fé em Jesus Cristo. O falar alto, distintivo traço na pregação do Batista, refere-se ao seu apaixonado empenho em despertar seus conterrâneos quanto à urgência de acolherem a visita divina. A luz de Deus e a consequente libertação não podiam ser desperdiçadas. 

O desnorteio que marca a atual cultura humana demanda que surjam novos profetas do bem, que, inspirados no exemplo do Batista e tocados por seu zelo de ver liberta a humanidade, gritem alto e convoquem as multidões para uma estratégica pausa. Urge encontrar-se com o Libertador. Urge, pois, convencer-se do indispensável silêncio do deserto. Nenhuma festividade precisa ser abortada. Necessário apenas é ordenar as preferências!

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