Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Charles Borg: Cédulas

O dízimo é bíblico! Antes de qualquer legislação social, o Criador tratou de educar o ser humano a relacionar-se responsavelmente com a sua produção e a relacionar-se, com igual responsabilidade, com seu semelhante! Na primitiva comunidade cristã não se fala em dízimo. Insiste-se na partilha que representa o pleno cumprimento da lei, tão ao agrado do pensamento de Jesus. Para os primeiros discípulos, mais que o cumprimento legal, interessava a alma que dá vida e profundidade à lei escrita. 
 
A insistência sobre a partilha remete para a básica instrução de Jesus envolvendo a fraternidade radical. A solidariedade comprometida representa um evidente salto de qualidade, uma profunda mudança de mentalidade e de atitude. Não é o cálculo legalista que regula, mas a gratuidade inspirada na generosa providência divina. De graça recebe-se tudo, de graça, abertamente deve-se partilhar. 
 
Numa belíssima reflexão encontrada no livro de Jó, o personagem símbolo roga a Deus para que nunca coma sua fatia de pão sem reparti-la com o faminto. É a consciência profunda que tudo o que se possui, mesmo adquirido com o esforço do próprio trabalho, deve-se á benevolência divina. 
 
Inspirado na dimensão mística da generosidade, era previsível que o sentimento de partilha se arrefecesse. A alma humana dificilmente se liberta do mesquinho cálculo. Outra tendência recorrente na conduta humana é a acomodação. É mais confortável ignorar e desligar-se de situações que não interferem diretamente no orçamento cotidiano. 
 
Se puder conseguir serviços e bem estar sem o ónus de custeá-los, ótimo. É o infeliz hábito de sempre querer tirar vantagem! Por conta dessa teimosa tendência interesseira da alma humana, a instituição eclesiástica se vê obrigada a regredir à prática da lei do dízimo, pelo simples e elementar motivo que sem recursos financeiros fica impossível qualquer desempenho evangelizador e missionário. 
 
Teólogos e pastoralistas mais centrados insistem na dimensão mística do dízimo, no binário da generosidade e da corresponsabilidade. Quando esta dimensão é compreendida e assumida, observa-se uma salutar e madura participação na vida da comunidade. E que vai além da contribuição financeira. Quem opta participar do dízimo nesta dimensão mística, não se contenta em limitar sua colaboração a numerários. 
 
Compreende que o dinheiro representa apenas um aspecto da corresponsabilidade. Reconhece que possui outras riquezas, outras habilidades, incluindo tempo, que pode colocar à disposição da comunidade. Nesta dimensão, a participação econômica representa apenas um aspecto - e nem é o mais importante - de seu engajamento e identificação com a comunidade. Espontânea e alegremente entende que sempre pode, e quer, fazer mais por sua comunidade e pela evangelização. Reduzir o dízimo à dinheiro é sinal alarmante de indigência espiritual. Mais que cédulas, dízimo é corresponsabilidade na salutar causa de fazer o evangelho acontecer!
LINK CURTO: http://folha.fr/1.359880

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