Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, de Araçatuba, é doutor em teoria literária e literatura comparada

Carlos Eduardo Brefore Pinheiro: Hojarasca

"Pela primeira vez vi um cadáver." 

Com essa frase, o escritor colombiano Gabriel García Márquez inicia sua novela de estreia, “A Revoada”, publicada em 1955. Ganhador do prêmio Nobel e mestre do chamado realismo fantástico, vertente que marcou a prosa narrativa de inúmeros escritores latino-americanos ao longo do século XX, Márquez é mais conhecido por obras como o monumental “Cem Anos de Solidão”, um dos pontos altos do gênero fantástico, que tem como cenário a fictícia Macondo (inspirada na aldeia natal do escritor, Aracataca). Ainda que alheio ao gênero que tornaria esse autor imortal, seu primeiro texto já apresenta como espaço ficcional a aldeia que ganharia fama posteriormente, quando da publicação da obra-prima de Márquez.

É Macondo o cenário em que se desenrolará o drama vivido pelos personagens de “A Revoada”, cujo título original é “La Hojarasca”, que, em tradução literal, significa “folharada” — uma imagem metafórica que ganhará sentido ao longo da trama. Chama a atenção nesse texto primeiro os muitos artifícios empregados pelo autor e a mestria com que conduz sua trama, sempre resvalando os limites entre o segredo e a verdade, criando uma atmosfera de dúvidas e questionamentos que aguçam o leitor a cada página e produzem uma tensão em escala ascendente conforme vamos adentrando no íntimo de cada personagem e desvendando mistérios que insistem em se manter velados.

Basicamente, a história se passa em um único dia: o do enterro de um médico que rompeu relações com o mundo e que gerou um sentimento de antipatia (e mesmo de ira) entre os moradores daquela aldeia. Nessas poucas horas entre a preparação do corpo e a saída para o sepultamento, a narrativa vai se alternando por meio dos três únicos personagens que comparecem para velar o morto — os três narradores que compartilharão conosco informações que, uma a uma, montadas como um quebra-cabeça, lançarão alguma luz sobre nossas dúvidas: um velho coronel, sua filha Isabel e o filho desta. Por meio desses fluxos de consciência, somos arrastados do presente ao passado, numa trajetória de vinte e cinco anos (de 1903 a 1928) — da chegada do médico à aldeia até o dia da sua morte.

Trazendo como bagagem um baú que contém nada mais que duas camisas simples, uma dentadura (que não lhe pertence), um retrato e um formulário, o “doutor” (nem mesmo sabemos qual é o seu nome) chega certo dia à casa do coronel, por recomendação de um outro militar, e ali fixa residência por oito anos (comendo, durante todo esse tempo, apenas capim), até que decide ir morar em outra casa, acompanhado pela índia Meme, antiga empregada do coronel, que passa a viver em concubinato com o médico. 

Por fim, a índia desaparece (a dúvida de um possível assassinato paira no ar), e o “doutor” se enclausura, não sendo mais visto pela população local por muitos anos, até seu suicídio. Antes disso, porém, ele ganhará o ódio dos habitantes de Macondo por se negar a cuidar dos doentes quando estes vêm, em um dia de angústia, à sua porta (que nunca mais se abriu para ninguém).

Nesse sentido, é válido também o primeiro título dado à tradução em língua portuguesa da obra - "O Enterro do Diabo". O enterro de um homem que vive e morre na mais absoluta solidão. Porém, mais do que essa solidão trágica que marca a trajetória do personagem, talvez o que mais angustie o leitor que acompanha os acontecimentos é a ausência de explicações para tal comportamento. 

Muitas peças do quebra-cabeça poderão ser encaixadas a partir das informações que vão sendo apresentadas, de forma caótica e fragmentária, pelos narradores; porém tantas outras permanecerão no mais profundo silêncio até o fim da narrativa, quando enfim nos damos conta de que as dúvidas nos acompanharão no pós-leitura e de que não haverá nada capaz de satisfazer nossa curiosidade.

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