Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, de Araçatuba, é doutor em teoria literária e literatura comparada

Carlos Eduardo Brefore Pinheiro: 'A Cabana do Pai Tomás'

Quando o assunto é a Guerra Civil Norte-Americana, travada entre 1861 e 1865 pelos Estados do Norte (liberais e industriais) contra os Estados do Sul (escravocratas e agricultores), não é raro ouvir comentários sugerindo que um dos principais estopins para a instauração do conflito se deve à publicação do romance “A Cabana do Pai Tomás”, de Harriet Beecher Stowe, primeiramente em folhetim, de 1851 a 1852, e, em seguida, em forma de livro. Conta-se também, de acordo com os bastidores da história, que o então presidente Abraham Lincoln, em certa ocasião, teria se dirigido à autora, congratulando-a como a pequena mulher que escrevera um livro capaz de iniciar uma grande guerra. 

Realidade ou lenda, o fato é que o romance de Stowe é um dos pontos altos de uma discussão que o mundo ocidental como um todo travou ao longo do século 19, focando uma verdade inconveniente que foi o sustentáculo econômico dos impérios europeus e, posteriormente, americano, ao longo de quatro séculos: a escravidão dos povos de origem africana. E se o problema da escravidão humana é uma página virada e nada honrosa de nosso passado, o problema do preconceito étnico, outra tônica da narrativa de “A Cabana do Pai Tomás”, é ainda algo que paira em nossas sociedades modernas, pondo a nu o fantasma de uma mentalidade que segrega homens por sua origem e cor de pele, lavando-nos a velhas reflexões sobre direitos humanos.

O romance de Stowe pode ser visto como uma parábola sobre a escravidão, a fé e o martírio, tendo como protagonista a figura do Pai Tomás, escravo de uma família abastada, proprietária rural do Estado do Kentucky, que, por conta de dívidas contraídas, vê-se obrigada a vender algumas “peças”, a fim de saldar os débitos. Sendo mercadoria, o escravo passa às mãos de outro senhor, fazendeiro da Louisiana, que acaba morrendo muito cedo, levando Tomás a passar às mãos de um outro proprietário. Se nas duas primeiras residências o velho escravo encontra o acolhimento, a afetividade, o carinho e o espírito cristão, sua derradeira moradia será a visão de um inferno em vida, com o proprietário fazendo as vezes de algoz e demônio.

A narrativa é toda marcada por uma ética religiosa de origem cristã, e o Pai Tomás se coloca para nós, leitores, desde o início, como um servo do Senhor, misto de pregador, evangelista e missionário disposto a fazer o bem a todos os seus semelhantes, independentemente da sorte que lhe sobrevier, pois seu prêmio maior encontra-se em um reino outro, que não pertence a esse mundo. Com Tomás, o lema do “dar a outra face” é posto em prática cotidianamente, e a liberdade do espírito, como contraponto ao cativeiro do corpo, é o que fortalece o coração desse homem que busca a todo momento imitar o seu Cristo.

Inúmeras são as alusões bíblicas de que Stowe lança mão para compor sua intriga. Entre elas, podemos destacar o canto triste dos escravos, que seus senhores exigem para sua distração, remetendo-nos ao salmo: “Aqueles que nos levaram cativos nos pediam uma canção (...) Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha?”. A fuga da escrava Elisa, com seu filho, saltando entre os blocos de gelo do rio Ohio, perseguida por cães, é vista como obra milagrosa, “como se o Senhor tivesse carregado ela numa carruagem de fogo e dois cavalos”. E mesmo o Pai Tomás vai ser tentado no deserto pelo diabo, quando seu último dono o convida a abandonar Deus e juntar-se à administração da fazenda, passando a oprimir e açoitar os demais escravos. Como bom cristão, o escravo rejeitará a sedução enganosa do inimigo.

Mas, talvez, a maior referência bíblica não esteja explícita no texto, pairando nas entrelinhas da cena final de Tomás, quando vislumbramos nele a figura do apóstolo Paulo: “Quanto a mim, já estou sendo derramado como vinho na oferta de libação. O momento da minha partida se aproxima. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me concederá naquele Dia; e não somente a mim, mas certamente a todos que amarem a sua vinda”.

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