Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, de Araçatuba, é doutor em teoria literária e literatura comparada

Carlos Brefore Pinheiro: Visões do futuro

Um homem que consegue tornar o próprio corpo tão transparente quanto uma lâmina de vidro; um outro que tem o seu tamanho aumentado em proporções infinitas; um que dorme durante alguns séculos e desperta num futuro totalmente estranho; um homem com a capacidade de fazer milagres; um jornal do futuro que é entregue por engano no presente; um homem que perde peso sem perder volume e consegue voar; um que inventa uma máquina capaz de viajar pelo tempo. 

Esse é o universo das narrativas do britânico H. G. Wells, um dos fundadores da chamada literatura de ficção científica, que fará escola ao longo dos séculos XX e XXI, e que tem entre suas criações obras como "A Máquina do Tempo", "O Homem Invisível", A Ilha do Dr. Moreau" e "A Guerra dos Mundos".

Anthony Burgess comenta que "uma nova fé, mais envolvente que o hedonismo de Pater ou o imperialismo de Kipling, se fazia necessária, e Bernard Shaw e H. G. Wells (1866-1946) a encontraram no que podemos chamar de liberalismo - a crença de que o futuro do homem está na terra, não no céu, e que, com o progresso científico e social, um paraíso pode ser eventualmente construído. 

Wells é uma das grandes figuras da literatura moderna." A carreira literária de Wells se inicia em 1895 com uma obra que viria a se tornar uma referência cultural ao longo do século vindouro, influenciando outros autores e, mesmo, outros segmentos artísticos: "A Máquina do Tempo".

Obra de juventude, escrita sob o signo da necessidade, com defeitos estéticos e narrativos (alguns mais perdoáveis que outros), o romance em questão foi visto pelo próprio autor como um trabalho ainda modesto, fruto de uma mente em processo incipiente de elaboração artística. "É, evidentemente, obra de um escritor sem muita experiência, mas certos aspectos originais a salvaram da extinção, e ainda existem editores e quem sabe até leitores que se interessem por ela após um terço de século", declara Wells em prefácio à edição de 1931. 

Outro escritor, já consagrado à sua época, para quem a tecnologia e a ciência são as pedras fundamentais de suas narrativas, célebre por suas descrições minuciosas de inventos, experimentos e análise dos elementos naturais aliadas às empolgantes aventuras vivenciadas por seus personagens, também torcia o nariz para os textos de Wells - ninguém menos que Júlio Verne.

Não estou aqui tentando descartar "A Máquina do Tempo". É ainda uma leitura envolvente, que em muitos momentos prende a atenção do leitor e o instiga a percorrer sua narrativa até o final, sempre mexendo com a curiosidade básica de todo ser humano que quer desvendar o que foi o passado e o que acontecerá com o mundo no futuro. Mas o leitor atento sairá da leitura com alguns questionamentos a respeito da construção narrativa e das lacunas deixadas por uma escrita lacônica. 

Pouco sabemos a respeito do protagonista e sua formação intelectual (nem mesmo um nome nos é dado, apenas a alcunha de Viajante do Tempo), menos ainda nos é informado a respeito da constituição da Máquina do Tempo e de como o mecanismo entra em atividade e que matéria alimenta o seu sistema (sabemos apenas da existência de uma alavanca que impulsiona a máquina para o futuro e para o passado e de um mostrador que registra os dias até a marca dos milhares de milhões). 

Visitando o ano de 802.701, o Viajante do Tempo encontra um novo mundo em que o ser humano, dividido em duas subespécies - os Eloi e os Morlocks -, perdeu toda a memória do passado, da civilização e de como chegaram até ali; uma sociedade sem escrita, sem qualquer índice cultural, sem qualquer sentimento de progresso e, até mesmo, desconhecedora do fogo. 

É ainda uma metáfora da divisão em classes que marca a sociedade capitalista (e imperialista) da época de Wells: de um lado, os Morlocks (o proletariado), que habitam instalações subterrâneas, avessos a qualquer tipo de luz, grotescos em sua constituição física, manipulando máquinas rudimentares e tecendo roupas para a outra subespécie; do outro, os Eloi (a elite), que vivem na superfície, num jardim paradisíaco, frágeis e alienados, amedrontados pelo escuro e pelos Morlocks. Porém a engrenagem capitalista sofre uma reviravolta: na ausência de animais domésticos e selvagens, adivinhem de quem se alimentam os carnívoros Morlocks?

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